A poética da arquitetura de interesse social

Este texto aborda a questão da poética arquitetônica nos conjuntos habitacionais de interesse social. Embora muitas vezes seja relegada a segundo plano, outras vezes até mesmo excluída das preocupações dos projetistas para este tipo de arquitetura, existirá sempre um grande campo de possibilidades, no plano estético, de escolha da configuração final de um edifício, apesar de grandes restrições de toda ordem, sejam estas técnicas, funcionais ou econômicas. Isto apesar de certa crença em contrário, que muitas vezes até coloca em oposição as preocupações estéticas com aquelas de ordem social, rotulando as primeiras de alienadas, elitistas, escapistas etc. e apesar também de a doutrina funcionalista do Movimento Moderno estabelecer os feitos poéticos como secundários em relação às soluções funcionais.

Podemos criticar a arquitetura de muitas maneiras, tantas quanto são as fontes de inspiração para fazer arquitetura. Uma das mais forte atitudes críticas, a partir do início do século XX, tem natureza social. Quem estudou arquitetura nos anos 1960 e 1970, lia necessariamente Arnold Hauser[1], Anatole Kopp[2], Ernst Fisher[3], e para os mais dispostos, até mesmo tentativas de incursão em Lukaks[4]. A crítica social estava em seu grande momento com as polaridades 1º Mundo X 2º Mundo, Capitalismo X Socialismo.

A adoção de formas típicas vernáculas, sem a preocupação estética,  tem como resultado resultado  casas enfileiradas em uma repetição infinita e sem qualquer interesse.

Geralmente a critica marxista investe todas as fichas contra as abordagens fenomenológica (onde a aparência ocupa lugar de destaque), psicológica (onde é importante a reação psíquica dos usuários) ou estruturalista ( marcada pelo conteúdo simbólico).

O mais comum na confecção da arquitetura de interesse social  sempre foi privilegiar o orçamento em detrimento de outras questões. Assim utilizam-se os materiais mais baratos e processos construtivos simples, a relação alta de área construída por hectare, e abre-se mão de qualquer atitude estética que não seja a mais simples forma típica vernacular. O resultado são casas enfileiradas em uma repetição infinita e sem qualquer interesse. Porém, em alguns casos, e possível driblar algumas limitações orçamentarias e fazer sobrar algum espaço para a poética.

demetre 06 (1)

Favela da Maré. Rio de janeiro, 1993, Cooperativa de Profissionais do Habitat.

Este é o caso dos dois exemplos que discutimos aqui, os quais mostram duas poéticas absolutamente diferentes, poderíamos mesmo dizer contraditórias. Mas que são uma pá de cal no argumento daqueles que insistem em esgotar o conteúdo da arquitetura em seus aportes sociais, preocupando-se apenas com o atendimento físico de espaços mínimos, valendo-se de eufemismos do tipo “o objetivo maior que é o ser humano”, “engajamento na causa social” etc. Ora, a arquitetura é e sempre será um problema de forma. Sem a preocupação com a forma, existe edilícia, mas não arquitetura. Isto não exclui outras preocupações, como as causas humanísticas, sociais, psicológicas ou simbólicas.

Os projetos da Cooperativa de Profissionais do Habitat do Rio de Janeiro fizeram muitos sucesso nos anos 1990. Iniciado em 1990, o grupo, liderado por Demetre Anastassakis assinou, para o programa Favela Bairro, do Rio de Janeiro o Conjunto da Maré, em 1993. Depois, o mesmo método foi utilizado em diversos sítios do Rio e outros estados, com em Vila da Barca, Belém do Pará.

600074814_a2e84dda3f_z

Trata-se de um método construtivista[5], e como tal, realiza plenamente as aspirações do primeiro modernismo bauhausiano, de uma poética abstrata, impessoal, articulada estruturalmente comunicativa, formalmente vibrante. O método é secular como o próprio modernismo. Moholy-Nagy gabava-se, em 1922, de ter-se desincumbido, por telefone, de pinturas em esmalte para uma fábrica de rótulos.[6] O mesmo poder-se-ia dizer do método da Cooperativa, que se utiliza de blocos “Lego” para estudar as composições volumétricas das casas. Com certo exagero poderíamos dizer que dois arquitetos, por telefone, devidamente equipados de peças de “Lego” poderiam trabalhar “em equipe”, orgulhando não somente ao prócer da Bauhaus, como também a Frank Lloyd Wright, que se encantava com os blocos de brinquedos Froebel.

froebel e lego

Blocos Froebel e blocos Lego utilizados na composição de conjuntos arquitetônicos.

O mérito dos arquitetos da Cooperativa foi de resgatar o método. A crítica se faz ao fato de virarem as costas a alguns temas daquele momento de final de século como as questões de “espaço x lugar”, que sensibilizou mesmo arquitetos de forte tendência marxista, como Aldo Rossi e outros arquitetos da Tendenza. A ignorância do contexto, pensando em um método universal, que se havia criado nos momentos de vanguarda do Movimento Moderno, estava já desgastado, cedendo lugar a formas mais significativas e semantizadas, em vez das formas abstratas. Mesmo assim o formalismo construtivista da Cooperativa fez, e continua a fazer grande sucesso.

Um dado semântico de grande importância é que as alvenarias não revestidas significam, para este público de baixa renda, uma construção inacabada.

Alias, esta falta de sensibilidade semântica aparece também na escolha do material, a lajota cerâmica portante. A técnica construtiva encanta arquitetos e estudantes, e possibilita a articulação volumétrica, que é o ponto de ataque do método. Porém ignora um dado semântico de grande importância, que as alvenarias não revestidas significam, para o público de baixa renda, uma construção inacabada.

Já o outro exemplo apresenta-se inserido em um historicismo, muito importante no início dos anos 1990, que saudava uma “virada linguística”[7] na arquitetura. Trata-se do projeto e construção de 46 moradias na favela Nova Holanda, em Bonsucesso, parte de um elenco de intervenções da Cooperativa Habitacional da Favela Nova Holanda, e agraciado pelo Prêmio Hélio Uchoa, IAB-RJ, em 1992.

Nova Holanda 2

Favela Nova Holanda. Rio de Janeiro, 1992.  Núcleo Arquitetura/ Comunidades (Arco), da Universidade Santa Úrsula. Arquiteto Ricardo de Gouvêa Corrêa

A intervenção, que contou também com o apoio do Núcleo Arquitetura/ Comunidades (Arco), da Universidade Santa Úrsula foi dirigida pelo arquiteto Ricardo de Gouvêa Corrêa, que também assina os projeto. A cooperativa montou, para a consecução da obra, uma fábrica de artefatos de concreto, onde produz blocos e lajes pré-moldadas a preços reduzidos e contratou toda a mão-de-obra na própria comunidade, cumprindo com os encargos sociais e a legislação vigente. Os resultados, inclusive sua premiação, mostram que não é necessário, em nome de um barateamento, sacrificar a qualidade do desenho arquitetônico e da construção.

Nova Holanda 1

Nova Holanda, Detalhe de uma unidade.

Diferentemente da abstração lúdica do exemplo anterior, este projeto optou por um método tipológico. Em vez da orientação em direção ao objeto arquitetônico e suas possíveis articulações, aqui se olha para o espaço criado pelas casas em fileira, uma opção adequada à época, em que muito se discutia o uso de tipologias históricas e vernaculas, impulsionado pelas questões levantadas pelos arquitetos da Tendenza, como Aldo Rossi e Rob Krier, os quais não viam o progresso apenas como novidade e mudança, insistindo mais na clareza tipológica, escala humana, proporções devidas, simplicidade e homogeneidade.

Nova Holanda 7

Nova Holanda. Perspectiva isométrica.

As casas mostram um desenho seguro e bem proporcionado, uma construção sólida e apresenta elementos tradicionais da arquitetura carioca e brasileira, como os arcos envolvendo as portas, reproduzindo a paisagem singela das vilas operárias do início do século XX. A cor é utilizada com muita propriedade e confere ao conjunto um vibração poética especial, tão mais adequada porque conseguida com um recurso de baixíssimo custo, como a pintura, diferentemente do exemplo anterior, que vai buscar a poética em articulações tecnologicamente mais complexas e mais custosas, também.

Nova Holanda 8

Ainda sobre a cor, ressaltemos um traço extremamente importante, que contraria um preceito modernista consagrado, a mudança de cor em um canto externo, mas que por isso mesmo confere uma maior atualidade à concepção poética.

Embora ambos os projetos se encaixem em uma postura revisionista, o primeiro esta muito mais ligado aos procedimentos modernistas, filiados à esteticamente à doutrina funcionalista. A essência desta doutrina no movimento moderno não estava em considerar que a beleza, a ordem ou o significado sejam desnecessários, mas que estes predicados não seriam encontrados em uma busca intencional. Outrossim seriam o resultado de um processo da busca da verdade funcional. Sob esta doutrina subjazia una implícita fé no determinismo biotécnico[8]. E é desta teoria de donde se deriva também a crença atual na suprema importância dos métodos científicos de análise e classificação.

A forma era simplesmente o resultado de um processo lógico mediante o qual as exigências e as técnicas operacionais eram agrupadas formando um todo. O que estes exemplos provam é que na arquitetura existe ainda um grande campo de possibilidades de escolha da configuração final de um edifício, apesar de grandes restrições de toda ordem, sejam estas técnicas ou funcionais, e apesar da crença em contrário, estabelecida pelos métodos do determinismo funcional ou biotécnico.


NOTAS

[1] HAUSER, Arnold. História social da arte e da literatura. São Paulo : Martins Fontes, 2003.

[2] KOPP, Anatole, Quando o moderno não era um estilo e sim uma causa. São Paulo: Nobel, 1990.

[3] FISCHER, Ernst, A necessidade da arte.  Rio de Janeiro: Zahar, 1987

[4] LUKÁCS, György. Introdução a uma estética marxista: sobre a categoria da particularidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978.

[5] O método construtivista de criação baseia-se em operações repetidas e previsíveis, diferindo de outros métodos de criação mental, nos quais o resultado é fruto do acaso, e portanto imprevisível.

[6] Ver “Bauhaus: a evolução de uma ideia. 1919-1932” in: FRAMPTON, Kenneth. História crítica da arquitetura moderna. São Paulo: Perspectiva, 1996.

[7] A virada linguística (linguistic turn) foi um importante desenvolvimento da cultura ocidental, sobretudo na segunda metade do século XX, cuja principal característica é a atenção para as com possibilidades e limites da linguagem, relativas ao objeto do conhecimento.

[8] Determinismo biotécnico. Atitude segundo a qual as condições técnicas e biológicas (p.e. condições climáticas, estruturais etc.) são os principais determinantes das soluções dos problemas.

Anúncios

Uma resposta para “A poética da arquitetura de interesse social

  1. Pingback: Controle do imaginário | Coisas da Arquitetura

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s