Croissant de Ipanema

Vinheta Croissant

A Associação de Moradores de Ipanema pediu há uns três anos, e o governador do Estado do Rio vai atender, segundo a publicação em um Jornal carioca, o fim de uma cobertura de acesso ao Metrô situada na Praça General Osório, em Ipanema. A construção é chamada pejorativamente de “croissant”, e qualificada de “horrorosa” e “trambolho”, pela coluna de Ancelmo Gois de “O Globo”. Segundo a coluna, a estrutura será substituída por outra “que parece se integrar melhor à paisagem da praça.”

Croissant de Ipanema - Cópia

Entrada do Metrô da Praça General Osório. O “Croissant”.

Nova entrada do metro

Futura entrada do Metrô da Praça General Osório.

O fato é expressivo por diversos aspectos que, juntos, atestam para a indigência de nossa critica arquitetônica e também para mau uso que fazem desta os jornalistas, certamente despreparados para tal função, mas que ocupam um espaço deixado vago por nossos profissionais.

A opinião do público, e das associações de moradores, por extensão, é sempre conservadora e não é assim tão boa conselheira. Quem hoje vê a imagem de Paris, indissociável de sua Torre Eiffel, deve saber que esta foi considerada pela opinião pública, à época de sua construção, como a desonra de Paris, que humilhava os monumentos da cidade, e que não se poderia imaginar nada mais feio para o olhar civilizado.[1] Aqueles mimos que são as entradas do Metro de Paris, desenhadas por Hector Guimard, foram salvos por milagre da sanha destrutiva com que os modernistas puritanos alvejaram o movimento Art Nouveau. Adolf Loos, o mais agressivo crítico deste movimento, considerava o ornamento como atraso, desperdício de dinheiro e energia, degeneração.[2] Em 1910, vaticinava que em dez anos não mais existiriam trabalhos de Olbrich, Van de Velde, Guimard e outros artistas Art Nouveau. E tinha razão. Onde estão hoje nossos monumentos Art Nouveau. Foram destruídos e em seu lugar colocados objetos “que se integram melhor à paisagem”, como poderiam dizer os jornalistas da época. Modernistas, certamente. Planos, lisos, brancos como a capital do Céu, no dizer de Loos.

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Entrada do Metrô de Paris. 1899-1905. Arquiteto Hector Guimard.

A cobertura que vai substituir aquele “trambolho” de Ipanema tem um desenho mais “miesiano”, minimalista, sem nenhuma expressão ou arroubo de desenho. Mas será que se integra melhor à paisagem? Este tipo de desenho não é feito para integrar-se a nada, pois para haver integração é preciso que haja algum diálogo entre o novo e o já existente; alguma concessão. Não. Este tipo de desenho é auto referente. Almeja a universalidade, não a adaptação ao lugar. Mas não deixa de ser interessante lembrar que outrora foi também muito criticado, justamente pelo que hoje é apontado como sua qualidade: a completa ausência de decoração, leveza, economia, transparência. É a arquitetura do “quase nada”, da ultima palavra em objetividade e universalidade, que teve em Mies van der Rohe seu mais qualificado arquiteto.

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Casa Farnsworth. Plano, Illinois. 1951. Arquiteto Mies van der Rohe.

Esta nova cobertura nos lembra a arquitetura de aço e vidro, tão admirada a partir do anos 1950, e que enriqueceu os fabricantes de vidro. Não podemos deixar de lembrar as palavras de Mrs. Edith Farnsworth, fazendo uma crítica à sua casa, uma dessas “joias de cristal”, projetada por Mies van der Rohe, a quem a proprietária processou após receber as chaves e a conta da casa. A Sra. Farnsworth alegou que a residência era inabitável. Dizia: “Eu queria algo significativo, e tudo que consegui foi essa falsa e superficial sofisticação”. Sobre o famoso mote de Mies, “Menos é mais”, a Sra. Farnsworth replicava: “Todos sabem que menos não é mais. É simplesmente menos”. [3]

Sobre o “croissant”, alguém no Facebook, sem a voraz destrutividade da associação de moradores, lembrou a semelhança com a Ópera de Sidney. Existem sim, remotas semelhanças. Mas analisemos este edifício. Projetado em 1955, este consagrou o arquiteto dinamarquês JØrn Utzon, então com 37 anos. Não há dúvida de que a Opera de Sydney é uma obra-prima, um dos edifícios mais emblemáticos do século 20, uma imagem de grande beleza, que se tornou conhecida em todo o mundo, simbolizando a cidade, o país e o continente. Sua forma principal constitui-se de conchas sobrepostas, originárias de seções de uma esfera de 150 m de diâmetro.

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Opera de Sidney. 1955-73. Arquiteto JØrn Utzon.

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Elementos de criação da Ópera de Sidney: seções de uma esfera segundo Giedion [4].

Um dos fatos mais importantes é que esse edifício representou um desafogo para o desenho arquitetônico ocidental, então mergulhado na austera formalidade e racionalidade do desenho bauhausiano, dos edifícios de aço e vidro do Estilo Internacional[5], e tinha como alternativa o Brutalismo de Le Corbusier, então nascente, e que nas mãos do mestre tinha muita expressividade, mas era facilmente banalizado, quando projetado por mãos menos hábeis. Pois bem, a Ópera de Sidney veio com tudo, apresentando um desenho mais livre e fantasioso. Era ainda constituído de formas abstratas e de inspiração geométrica, mas em muito se afastava do determinismo funcional pregado pela Bauhaus e do anti-industrialismo contido das massas de concreto corbusianas.

O “croissant” ipanemense tem algo desta matriz formal, mas tem também um referente mais recente: o construtivismo orgânico e zoomórfico, que tem como expoente o engenheiro valenciano Santiago Calatrava. Esta forma de projetar dá um novo dinamismo à utilização de estruturas de aço, utilizando perfis tubulares, em vez dos laminados em “duplo T” tradicionais, o que facilita a utilização de formas curvas não convencionais.

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Terminal ferroviário do aeroporto de Lyon. 1989-94. Arquiteto Santiago Calatrava.

Essas decisões de associações de moradores para demolir construções são um exemplo expressivo da situação em que vivemos da microfísica do autoritarismo de minorias. É lamentável, sobretudo, ver os termos “cobertura horrorosa” e “trambolho”, termos que uma critica séria deve evitar. Não quero entrar no mérito se a construção é horrorosa ou não, pois isso nos poderia levar bem distante e não é este o caso. A opinião plana e imediata do público não é boa conselheira, por ser sempre conservadora. O edifício em questão, do qual não quero em absoluto defender qualidades, tem uma filiação estética, e o desenho da cobertura que vai substituí-la tem outra. Não acho que uma seja melhor que a outra e que haja qualquer ganho em substituir uma por outra. Há sim um desnecessário desperdício de dinheiro.

É ainda recente em nossa memória a demolição da passarela em frente ao obelisco de Ipanema, projetada pelo arquiteto Paulo Casé. Este é um caso mais complexo, e que assume as características de uma violência cultural impetrada contra o arquiteto e contra a cultura carioca. O conjunto foi o resultado de um programa da prefeitura, o Rio-Cidade, e o arquiteto Paulo Casé o escolhido para projetar o trecho de Ipanema.

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Portal  e obelisco de Ipanema. 1995. Arquiteto Paulo Casé. Demolido em 2009.

Nos anos 1990, o universo da arquitetura ocidental ainda vivia em uma ebulição teórica, já nas últimas páginas do grande cisma em que se constituiu o chamado Pós-Modernismo. Apenas dois arquitetos no Rio de Janeiro aderiram claramente a este viés teórico. Paulo Casé e Luiz Paulo Conde e seus associados. Conde se orientou para uma pesquisa sobre o pré-modernismo carioca, dos anos 1930 e 40, que configurou no conjunto Alfabarra I e outras obras. Paulo Casé mostrou uma filiação a um tipo de historicismo abstrato, que seria chamado por Denise Scott Brown de PoMo[6], que se inspirava nas simplificações formais do neoclassicismo oitocentista, de Étienne Boullée e Claude Nicolas Ledoux, utilizado nos Estados Unidos por Michael Graves e Charles Moore, principalmente.

Casé projetou um belo e ousado portal com um obelisco. Este portal representava mais do que servia de passarela. Tinha um desenho primoroso, apelando para uma crítica comum na época ao racionalismo e funcionalismo estritos do Estilo Internacional. Não era racional. Seus pilares inclinados serviam muito mais à função poética do que estática. Não oferecia o conforto necessário a servir de passarela. Era mais um portal representativo. O público nunca entendeu esta provocação, típica do Pós-modernismo. O público e a imensa maioria dos arquitetos, obcecados ainda pelo anacrônico funcionalismo bauhausiano. Para entender, era preciso entender a arquitetura como arte da linguagem, a grande proposta pós-modernista. O resultado é que a passarela foi destruída.

Tais fatos apontam para um destino pobre para a nossa arquitetura, acrítica, servil, incompreendida em suas melhores manifestações, produtivista, refém da indústria da construção, ostentando aquelas qualidades tão decantadas no início do século XX, prática, objetiva, econômica, impessoal, que nos dias de hoje significa pobreza e esterilidade criativa.

Cópia de Rubrica SC

Aviso


Vinheta Casasabrasileiras

NOTAS

[1] BENEVOLO, Leonardo. História da arquitetura moderna. São Paulo: Perspectiva, 1976. P. 146.

[2] Loos Adolf. “Ornamento e Crime”. Ver, para uma análise desse texto BANHAM, Reyner. “Adolf Loos e o problema do ornamento.” In: Teoria e projeto na primeira era da máquina. São Paulo: Perspectiva, 1979. Cap. 7. P. 133 e seg.

[3] http://architecture.about.com/od/houses/a/farnsworth.htm

[4] GIEDION. Sigfried. Espace, Temps, Architecture. Bruxelas, La Connaissance, 1968.

[5] Ver artigos “Estilo Internacional I” e “Estilo Internacional II”, neste blog.

[6] Ver artigo Contexto no Contexto neste blog.

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