A arquitetura do Rio de Janeiro vai ao cinema

Vinheta

A história é uma ficção, nos dizem os historiógrafos. Sabem eles que jamais se tem acesso aos fatos como aconteceram em sua totalidade, e sempre se terá que preencher uma narrativa histórica com boa dose de invenção. Com isto em mente, não seria justo exigir do filme “Flores Raras”, cuja proposta é narrar os encontros e desencontros do triângulo amoroso formado por Lota Macedo Soares, Elizabeth Bishop e Mary Stearns Morse, um rigor historiográfico muito grande quando se trata do contexto da história.

Aterro do Flamengo posterizado (2)

A grande questão é que esse contexto é a arquitetura e o paisagismo do Rio de Janeiro. Eu, como professor de arquitetura, que fui estudante na época em que se passaram esses fatos, e que vejo hoje o ensino da matéria girando em círculo em torno de questões as mais rasteiras, pensando apenas em uma falaciosa reposição de mão de obra para construtoras, incorporadoras e grandes empresas, e esquecendo as questões mais nobres da nossa arquitetura brasileira e carioca, que fulguravam nos anos 1950 e 1960, fiquei perplexo com certas lacunas existente no filme. Em nenhum momento foram mencionadas três figuras da maior importância na construção daquele quadro a que se refere o filme: Sergio Bernardes, Affonso Eduardo Reidy e Roberto Burle-Marx. Nem uma menção! Nem as iniciais!

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Residência Lota Macedo Soares. Fazenda Samambaia. Petrópolis. Arquiteto Sérgio Bernardes. 1953.

Quem foram essas figuras?

Sergio Bernardes foi nada menos que o arquiteto que projetou a verdadeira casa de Lota, na Fazenda Samambaia. No filme, Lota vive o seus amores com Mary e Elizabeth, em uma licença poética,  em Pedro do Rio, a quilômetros de distância. Trata-se da Casa  Edmundo Cavanelas, projetada em 1954, por Oscar Niemeier, com jardins de Burle Marx.  E é muito interessante ver como as ideias arquitetônicas modernistas serviam a um mundo em mudança, representado pela vida amorosa de Lota e seus pares. Em certo momento a personagem Lota, referindo-se à casa diz que fez tudo aquilo. Uma frase que pode ser interpretada de diversas maneiras, a pior delas induzindo o espectador a pensar que ela projetou aquela casa, o que não é verdade.

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Residência Lota Macedo Soares. Detalhe da estrutura.

Muitos estudantes hoje em dia, sequer ouviram falar de Sergio Bernardes, que naquela época lutava para dividir com Niemeyer e Lúcio Costa, o pódio da arquitetura brasileira. Seu inspirado projeto para o Pavilhão Brasileiro na Feira Mundial da Bélgica em 1958, o alçaria a uma posição de destaque, anos mais tarde. A casa de Lota Macedo Soares, premiada na II Bienal do Museu de Arte Moderna de São Paulo, em 1953, é de grande importância para a História da arquitetura carioca e brasileira. Diferentemente de Niemeyer, Reidy e outros, que trabalhavam a plasticidade do concreto armado, Bernardes buscava uma via alternativa, que vai aparecer também na casa de Lota, sobretudo pelo uso de estrutura de aço, com suas marcantes treliças a apoiar o telhado, de chapas onduladas de alumínio. O olhar atento do arquiteto espectador não deixará de perceber as coloridas paredes de pedra, reverberando as vozes das amantes, e os coloridos jardins de Burle Marx. Mas falta menção explicita a Bernardes e à verdadeira casa. Não estaríamos em uma casa comum: estaríamos em uma casa premiada, de uma arquitetura consagrada mundialmente.

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Residência Cavanelas . Pedro do Rio , Petropolis, 1954. Oscar Niemeyer.

 

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Panorâmica do Parque do Flamengo. Rio de Janeiro. 1962-4. Affonso Eduardo Reidy.

Outro nome não mencionado é o de Affonso Eduardo Reidy. Quando na faculdade, nunca escutei falar de Lota Macedo Soares. O Aterro do Flamengo era projeto de Reidy. Poderão dizer que eu era um aluno displicente e desatento. Pode ser. Então eu fui aos livros da época. O livro de Yves Bruand [1] não menciona Lota, embora fale desse período.

A ação do governo Lacerda (1960-65) não foi fundamentalmente inovadora, como às vezes se pensa como consequência de uma propaganda bem feita, mas foi eficaz. Os serviços de urbanismo não fizeram mais do que aplicar e algumas vezes desenvolver as soluções do plano piloto já fixado.[2]

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Desenho de urbanização do Aterro do Flamengo. Affonso Eduardo Reidy. 1962.

Na verdade, a ideia do Aterro do Flamengo, remonta ao Plano Agache, 1927-30, e foi retomado em 1937 pelo prefeito Henrique Dodsworth, que criou uma “Comissão do Plano”, a qual elaborou, ao final de dez anos de trabalho, um plano diretor cujas linhas mestra foram seguidas por décadas. A direção era de José de Oliveira Reis[3]

O Aterro do Glória, como se dizia na época, foi pensado, segundo ideia vigente, como uma solução viária, para desafogar a Avenida Beira-Mar, utilizando material do desmonte do Morro de Santo Antônio. O desenho do projeto definitivo, bem como da urbanização da área resultante do desmonte do Morro de Santo Antônio, hoje Avenida Chile foram assinados por Affonso Eduardo Reidy, segundo consta do livro de Mindlin [4]. Reidy também assinou a maioria das construções do aterro, desde o grande MAM, marco da arquitetura brasileira, até as passarelas para pedestres e pequenas folies do parque.

Finalmente, Roberto Burle Marx. A quem se deve o interessante e criativo gramado reproduzindo o desenho das calçadas de Copacabana em dois tipos de grama? A quem se deve a seleção da grande diversidade floral, a riqueza vegetal do parque ? Quem compôs o brilhante jogo de texturas composto pelas arvores, arbustos, palmáceas, trabalhando as flores e espécies como tintas e pincéis em uma grande tela ? Nós aprendemos que tudo isso devemos a Roberto Burle Marx, e não a Lota Macedo Soares, como pode parecer no filme, para um espectador mais desatento.

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Jardins do Museu de Arte Moderna (MAM) Rio de Janeiro. Roberto Burle Marx, 1953-63.

Num mundo em que o ensino tradicional perde espaço para outras formas de comunicação, é preocupante ver em um filme de grande circulação como esse, a veiculação de informações erradas e imprecisas ou  lacunas como estas.

Cópia de Rubrica SC

Aviso

Veja a verdadeira residência de Lota em detalhes no nosso outro Blog.

Vinheta Casasabrasileiras


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PS: Lacerda: o Corvo. Para a visão da maioria dos estudantes da época, como eu, indignados e humilhados por aqueles anos de chumbo, de 1966 a 1975, Lacerda não era a figura simpática que aparece no filme, o qual capta o seu melhor momento, a frente do recém criado Estado da Guanabara, mas uma figura maligna que conspirara com os militares para impor-nos o golpe militar de 1964. A figura de bom administrador que deixou, a qual muito deve aos planos já existentes da SURSAN (Superintendência de Urbanização e Saneamento), criada em 1957 pelo então prefeito Negrão de Lima. e do mencionado Plano de Henrique Dodsworth, não conseguiu apagar a imagem do jornalista e político que vivia de criar factoides, de fomentar intrigas e maledicências, visando sua ascensão política. Nos o chamávamos de “gorila”, mas o seu apelido mais frequente era de “corvo”, um apelida que não se endereçava apenas à sua aparência, aos óculos de aros grossos e escuros, que também legou o apelido a Le Corbusier [5], mas também pela característica necrofágica desse  animal, que se alimenta de cadáveres e  e vive em locais onde impera a sujeira e podridão.

 


[1] BRUAND, Yves. Arquitetura contemporânea no Brasil. São Paulo: Perspectiva, 1981.

[2] BRUAND. Op. Cit. P. 337.

[3] Outros arquitetos membros da comissão: Hermínio de Andrade e Silva, David Xavier de Azambuja, Aldo Botelho,, Nelson Muniz Nevares, Armando Stamile Genarino e Edwaldo Moreira de Vasconcelos. Ver MINDLIN, Henrique E. Arquitetura Moderna no Brasil. Rio de Janeiro: Aeroplano/ IPHAN, 2000. P. 252.

[4] MINDLIN, Henrique E. Arquitetura Moderna no Brasil. Rio de Janeiro: Aeroplano/ IPHAN, 2000.  Op. Cit. P. 268.

[5] Corbu significa corvo em francês.

11 Respostas para “A arquitetura do Rio de Janeiro vai ao cinema

  1. Maria Izabel Perini Muniz

    Assisti ao filme e tive a mesma impressão de que faltou verdade quanto à Arquitetura da época, Lota de Macedo Soares nunca foi Arquiteta, neste ponto ao menos quando Elizabeth pergunta onde estudou Arquitetura, a resposta vem de que “nasceu arquiteta”, portanto auto didata…
    Concordo plenamente com toda análise feita neste blog, reproduziu com perfeição o que percebi no filme, sem tirar o valor histórico e a magnífica interpretação das atrizes. É pena que o cinema não tenha compromisso fiel com a história da Arquitetura.
    Parabéns ao autor pela clareza do texto e pela análise da Arquitetura da época.
    Maria Izabel Perini Muniz
    Arquiteta e Urbanista

  2. Adorei o artigo!

  3. Parabéns professor, como sempre é um prazer ler seus artigos !

  4. Sérgio Elarrat

    Que alivio, percebi que haviam lacunas que não encaixavam com a história. Este artigo foi bem esclarecedor. Grato

  5. João F. Scharinger

    Crítica mais do que procedente! Sou engenheiro mecânico (mas arquiteto “de coração”…) e me revoltei, no filme, com tanta desinformação com relação a tantos importantes fatos da história da arquitetura e do urbanismo brasileiros, incômodo agravado pela simpática imagem conferida ao deletério Lacerda! Achei particularmente oportuno o alerta que você fez – o que não me ocorreu quando assisti a película – quanto à necessidade de informar às novas gerações, num tempo dominado por superficialidades virtuais, sobre a real história de nosso país.

  6. Silvano Gersztel

    Acabei de ver o filme e fiquei muito incomodado com a confusão em que a trama nos coloca frente uma visão história. Achei o artigo do professor Silvio muito direto e esclarecedor. Obrigado.

  7. Boa noite,
    Muito legal o post! Como arquiteta também pude notar a ausência dos nomes de Burle Marx e Reidy, pois também nunca ouvi falar do nome de Lota Soares. Acredito que ela tenha tido uma participação mas não foi a “protagonista” como narra o filme.

  8. Mariliza Galvão

    Adorei a sua narração esclarecedora! Não sou arquiteta, mas algo me dizia que existiam lacunas… principalmente por não citarem o Burle Marx, apesar do filme ser excelente preferia que também tivesse um conteúdo verdadeiro.

  9. Adalberto Carvalho Pinto

    O livro “Flores Raras e Banalíssimas”, no qual foi inspirado o filme é bem mais completo e cita os nomes aqui apontados: Reidy, Burle Marx e Sérgio Bernardes. Burle Marx, segundo consta do livro, conforme detalhes de transcrição de cartas a jornais da época, era desafeto de Lota de Macedo Soares. E Reidy é tratado de forma carinhosa por Lota.

  10. Mauricio Carvalho

    Excelente texto! Muito obrigado!

  11. Uma crítica muito bem ponderada.

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