Os MoXXI

,Vinheta

Estão baixando na paisagem do Rio de Janeiro estranhos objetos que podem, por quem não conhece o assunto, ser chamados de objetos arquitetônicos. Na verdade, à distância, se parecem com estes. Porém uma visão mais atenta nos fará compreender que nada do que se ensina (ou ensinava) nas faculdades de arquitetura é necessário para a construção destes objetos. As decisões sobre suas características, imagem, dimensões, materiais, cores, não são tomadas por critérios arquitetônicos, mas por critérios pragmáticos e clichês midiáticos e comerciais, frequentemente, de mau gosto e agressivos.

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Centro Empresarial Senado. Rio de Janeiro. 2013

Sua motivação passa longe de preocupações estéticas, culturais, contextuais ou históricas; é apenas pragmática e comercial. Os projetistas são grandes empresas, que podem até se chamar “de arquitetura”, mas seria melhor que se chamassem “engenharia comercial da habitação” ou “engenharia comercial de escritórios”.  Na maior parte das vezes estes edifícios são concebidos sem nenhuma reflexão sobre a relação com a cidade do ponto de vista epistêmico, muitas vezes sem nenhum conhecimento desta, ou pelo menos sem lhe atribuir importância decisória.

Projeto de uma cidade Ideal, de Ludwig Hilberseimer. 1924

De certa maneira, os MoXXI (Mega-objetos do século XXI) são consequência tardia de uma intenção que remonta às vanguardas arquitetônicas do século XX, e que pensávamos superada. Referimo-nos, por exemplo, às fantasias bauhausianas de Ludwig Hilbeseimer, por exemplo, com suas cidades verticais, em cujos desenhos não se vê nenhum ser humano, ou aos planos megalomaníacos de Le Corbusier da Cidade de Três Milhões de Habitantes e Plan Voisin.

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Edifício na Av. Presidente Vargas. Rio de Janeiro.

O pensamento arquitetônico do século XX produziu muitos argumentos contra a extrema abstração que estava na raiz do pensamento das vanguardas responsável por esses projetos de então. Estes argumentos viriam a ser a peça chave de uma crítica revisionista do pensamento moderno extremamente frutífera, que começou em meados dos anos 1950 e durou até os anos 1990. De lá para cá, a crítica se inibiu e a produção arquitetônica quase desapareceu, dando lugar aos MoXXI, que hoje parece que vão se estabelecer em definitivo nas grandes metrópoles. E infelizmente a crítica se esvaneceu, perdida no nevoeiro das práticas politicas e mercadológicas.

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Edificio proximo à Praça Mauá. Rio de Janeiro.

Dois argumentos repetidos pelos defensores dos MoXXI precisam ser esclarecidos e qualificados. O primeiro refere-se à questão da sustentabilidade. Geralmente estes edifícios, modernos que são, ostentam selos destes conselhos que certificam o grau de sustentabilidade de um edifício como o LEED [1] ou AQUA [2].

Esses selos foram alimentados no seio da própria indústria da construção civil, como uma resposta à sociedade, um tardio mea culpa, de vez que é esta indústria historicamente um dos maiores responsáveis pelo desgaste de recursos naturais, pela poluição ambiental, pelo consumo exagerado de energia, sobretudo nas metrópoles, e que foi desmascarado já nos anos 1970, com as grandes crises do petróleo. Como “a mão que balança o berço forja o caráter”, de mãe tão pragmática e positivista não poderia surgir outra coisa que não um selo conferido por critérios também pragmáticos e positivistas, constituindo-se uma lista de exigências de itens mensuráveis matematicamente: percentagem de economia de água e de energia consumida pelo edifício, diminuição de resíduos gerados, percentagem de material reciclado utilizado, utilização apenas de madeira certificado etc.

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Edifício na Avenida Rio Branco, Rio de Janeiro.

Quanto aos aspectos culturais e humanísticos, nada a dizer. A má qualidade do espaço visual, a inadequação da escala, a agressão ao contexto, o impacto ambiental negativo, não descontam pontos nesses selos, pois são item difíceis de mensurar e que não encontram consenso nem mesmo entre os arquitetos. Um edifício para atingir o qualificativo de sustentável poderia considerar a dimensão histórica do sítio, a sua real necessidade social, e não apenas mercadológica. Também sua integração ao contexto, sua interação com o ambiente urbano, e os aspectos sociais e econômicos envolvidos na produção do espaço arquitetônico deveriam, da mesma forma, fazer parte do universo da avaliação da sustentabilidade.

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Torre Hearst. Nova Iorque. 2004.

Veja-se o exemplo da Torre Hearst, de Norman Foster, o primeiro edifício em Manhattan a receber o Selo LEED Ouro, porém um absurdo total: um edifício histórico que foi reduzido à sua pele, de dentro da qual surge um MoXXI Allien. Um grande exemplo de mau gosto e de inabilidade para construir edifícios fora da proposta tecnicista.

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Edifício na rua Visconde de Inhaúma. Rio de Janeiro.

Dizer, por exemplo, que um edifício totalmente revestido de vidro espelhado merece um selo de sustentabilidade soa um tanto estranho, de vez que o vidro é um dos materiais que mais incorpora energia em sua produção, consequentemente um dos vilões históricos da sustentabilidade. De nada adianta a indústria do vidro acenar com materiais com propriedades de isolamento e controle do calor e da luz. Assim como na questão da mulher de Cezar, a quem não basta ser honesta, mas tem que parecer honesta, não basta a um material apregoar certas propriedades de refração, absorção e reflexão de luz; é preciso também que este material comunique qualidades sustentáveis, o que certamente o vidro não faz.

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Edificio proximo à Praça Mauá. Rio de Janeiro.

A outra questão é o cínico discurso de que estes edifícios são contextualizados porque refletem o entorno. Qual uma pessoa que usa óculos espelhado, e que quer ver tudo a sua volta sem que os outros percebam o seu foco de interesse, ou tal qual um automóvel com as famigeradas películas insulfilm, esses edifícios espelhados não pretendem nenhuma relação com o entorno. Eles o refletem por que o rejeitam, não o assimilam, são refratários a ele, e assim o fazem com a sua imagem, que é refletida e devolvida pela sua pele impermeável.

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Edifícios da década de 1940 na Avenida Rio branco, Rio de Janeiro.

Como chegamos a esse ponto? A esse excesso de abstração que descaracteriza nossas cidades e ataca impiedosamente seus traços marcantes? Se observarmos os edifícios de décadas passadas, veremos a marcha perversa dessa ideia. Nos anos 1940, os edifícios eram compostos de elementos facilmente identificáveis: portas, janelas, balcões, guarda corpos, platibandas, varandas etc. Estes elementos, apesar de uma escala dos edifícios já distante daquela escala amigável das casas e sobrados, eram responsáveis por uma ligação entre o edifício e o público.

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Edifícios da década de 1960 na Avenida Rio branco, Rio de Janeiro.

Mais adiante, nos anos 1960, os elementos perderam a antiga identidade. Já não falavam a linguagem da tradição. Referiam-se a uma nova maneira de encarar o objeto arquitetônico: a metáfora biotécnica.[3] Assim adquirem relevância os painéis verticais e lâminas, que formam sistemas de proteção solar, e as janelas perdem sua forma tradicional. Porém a relação de escala é guardada, os pavimentos são claramente marcados, proporcionado a relação do todo e das partes.

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Edifício Delta Plaza e Edifício Banespa. São Paulo, Anos 1980.

A abstração, como orientadora da composição arquitetônica, segue fazendo conquistas. Nos anos 1980 foi definitivamente apoiada pelas indústrias de esquadrias de alumínio e indústria do vidro, ensejando aquilo que chamamos esculturismo abstrato, pai dos MoXXI. Daí em diante foi um pequeno passo e chegamos a estes enormes paralelepípedos habitados por incansáveis e prósperos executivos MBA, a nova geração dos Orgmen.

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Edifício na Rua do Ouvidor. Rio de Janeiro.

Observe-se que a evolução desse tipo de edifício seguiu apenas um paradigma dentre outros possíveis: aquele do modelo maquinista, desenvolvido pelas vanguardas arquitetônicas da Bauhaus. Dos anos 1950 até a última década do século XX surgiram outros modelos privilegiando a abordagem sociológica, como os brutalistas, ou ainda pouco mais adiante, tivemos a virada linguística, a abordagem estruturalista. Apesar da força de seus argumentos, não lograram se estabelecer por muito tempo como episteme arquitetônica. A verdade é que os MoXXI são sucesso de público, que entendem sua mensagem direta. São fáceis de entender, de desenhar e produzir, e por que não dizer, de ensinar, além de que não demandam muitos conhecimentos fora do âmbito da tecnologia edilícia.

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Edifício na Avenida Rio Branco, Rio de Janeiro.

Apesar de sua agressividade e do mau gosto, o que poderá reverter essa tendência, em um momento em que os arquitetos estão pouco preocupados em mergulhar em uma reflexão sobre a profunda crise cultural em que vivemos, e buscar novos caminhos? A verdade é que cada vez mais a arquitetura, pelo menos na grande metrópole, se afasta de sua natureza cultural, e somente incorpora a sua natureza tecnológica, premida pelos poderosos agentes comerciais e políticos. Somente a verdadeira consciência, o profundo conhecimento, e uma incessante busca pela melhora dos padrões de conhecimento e crítica, em nossas faculdades, poderão resgatá-la desse triste destino.

  Cópia de Rubrica SC


Ver também os seguintes artigos neste Blog:

  • Arquitetura e crise de Energia
  • O conceito de energia incorporada
  • Edifícios marcantes no centro do Rio
  • A corrente de cristal (O vidro na arquitetura do século XX)

Aviso

Vinheta Casasabrasileiras


NOTAS

[1] Leadership in Energy and Environmental Design, concedida pela Organização americana U.S. Green Building Council (USGBC), de acordo com os critérios de racionalização de recursos (energia, água, etc.) atendidos por um edifício.

[2] Qualidade Ambiental 

[3] Ver COULQHOUN, Alan.”Typolology and design method” In: JENKS, Charles e BAIRD, Georges. Meaning in architecture. Madri, H. Blume, 1975.

2 Respostas para “Os MoXXI

  1. Denis Batista

    Silvio Colin, na minha opinião a critica a essa Arquitetura esta longe de acontecer nas universidades, poís a mesma esta presa ao desgastado modernismo. Agora com esse software, que projetam sem qualquer analise do entorno, ocorre a retomada do falhido modernismo só que mais abstrato e sofisticado.

    As vezes me desanima pq é dificil se opor ao modismo, aos interesses economicos. Entretanto analisando a historia da Arquitetura é possivel conhecer arquitetos que superaram os modismo, como Louis Kahn. Em seu tempo os predios de aço e vidro estavam no auge e eram uma novidade, contudo ele se destacou ao trabalhar com o tijolo e formular uma teoria mais humanista.

  2. Audrey Moreira

    Ainda, este vidros são mortais para os pássaros que se chocam contra eles aos milhares todos os dias. No nosso país não se fala disso. Belo artigo, obrigada!

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