Um Rio dividido

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Um artigo  de Michael Kimmelman, publicado no New York Times dia 25 de novembro, 2013. faz uma clara análise da situação da cidade do Rio de Janeiro frente aos mega eventos que se aproximam, em 2014, seus dilemas, malversações, descaminhos, numa lógica difícil de ver na nossa impressa, também comprometida com o poder, a noticia de impacto, as imagens…

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A difícil jornada na frágil van leva à colina íngreme do Morro da Providência, a favela mais antiga desta cidade. Última parada: a pequena praça, silenciosa, com uma loja de hardware, bar e um par de jovens policiais no carro blindado, empunhando metralhadoras, patrulhando a ainda fechada estação do teleférico, que a cidade recentemente construiu. O porto (Maravilha) é visível lá embaixo.

Estimulado por dois iminentes megaeventos – a Copa do Mundo, no próximo ano e os Jogos Olímpicos de Verão em 2016 – as autoridades locais estão se esforçando para reinventar esta cidade do terceiro mundo, aparentando uma economia de primeiro mundo.

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Preparação para a implosão da Avenida Perimetral.

Na semana passada, começou a demolição da movimentada autovia Perimetral, que corta caminho através da área do porto, para dar lugar para um passeio de pedestre e um novo bonde.

(A Avenida Perimetral teve sua construção iniciada em 1950 e seu primeiro trecho, do Aeroporto Santos Dumont até a Candelária foi inaugurado em 1960. Era um legítimo representante de uma ideologia vigente na época de sua concepção, a das grandes cirurgias urbanas, de que resolver os problemas viários era resolver os problemas da cidade. Tal ideologia vitimou também, na mesma época, toda a vizinhança da Avenida Paulo de Frontin, no Rio. A partir dos anos 1970, passou a ser muito criticado, sobretudo por razões estéticas. Durante o mandato de prefeito do arquiteto e professor Luiz Paulo Conde [2003-7] veio a condenação definitiva, durante uma visita de Oriol Bohigas, amigo do prefeito e consagrado arquiteto catalão, a quem se creditam importantes obras como a Vila Olímpica e a renovação do Porto, em Barcelona.

O intenção de demolir a Perimetral era, entretanto, de motivação estética, para resgatar a ligação da cidade e seus cidadão com o mar. Na atual administração, sob o signo da “administração de resultados”, surgiu a idéia de criar uma grande área de extensão da área central e corremos o risco de vê-la entregue à sanha dos incorporadores, que sempre sonham em criar mega objetos urbanos, completamente alheios ao contexto. Vejam-se por exemplo as Trump Towers, conjunto de cinco torres de 38 andares, a ser contruido na Avenida Francisco Bicalho. Um modelo de insanidade edilícia, de ataque anticontextualista à Zona Portuaria, porém certamente um futuro sucesso comercial, que deixara seus realizadores “babando!!” )SC.

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Trump Towers, conjunto de cinco torres de 38 andares, a ser contruido na Avenida Francisco Bicalho.

O Prefeito do Rio, Eduardo Paes, no discurso parece dizer coisas certas sobre o combate à expansão, a melhora do transporte de massa, a construção de novas escolas, e pacificação e integração das favelas, onde habita um em cada cinco habitantes da cidade.

Mas, como meses de protestos de rua ilustram, os ideais progressistas correm contra o tempo, e os problemas parecem se avolumar ​​nesta cidade onde as diferenças econômicas e sociais e a corrupção são quase tão imóveis quanto as montanhas. Esta é uma cidade dividida em si mesma. E essa divisão é mais aparente no gigantesco plano de 8 bilhões de reais para requalificação do porto, do atual prefeito, que prevê transformar uma área industrial num reluzente centro, cheio de arranha-céus, para um novo Rio global.

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Um noite de samba na  tradicional Pedra do Sal,  no bairro da Saúde. O Porto Maravilha abrange este bairro e outros como ele – Saúde, Gamboa e Santo Cristo: pobres, deteriorados, mas belos enclaves de casas multicoloridas e ruas de paralelepípedos.

Com raízes bem brasileiras e uma mistura de armazéns, industrias pesadas e marcos antigos, o porto também engloba bairros como Morro da Conceição, Saúde, Gamboa e Santo Cristo: pobres, deteriorados, mas belos enclaves de casas multicoloridas e ruas de paralelepípedos. Washington Fajardo, que assessora o prefeito em assuntos urbanos e preservação histórica, me mostrou o cais de pedra, para navios imperiais e escravos, que foi descoberto perto do Morro da Conceição e recentemente tombado pelo patrimônio histórico.

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Museu do Amanhã. Projeto de Santiago Calatrava. um ameaçador isopode gigante (uma espécie de lagosta jurássica).

Mas a reconstrução do Porto Maravilha é, na maior parte um negócio imobiliário comercial, de um governo no encalço de empreendedores, queixam-se os críticos. Veja-se o tal Museu do Amanhã (seja ele qual for), em forma de um ameaçador isopode gigante (uma espécie de lagosta jurássica), projetado por Santiago Calatrava , arquiteto de ontem. Não há um plano mestre de verdade, nenhuma garantia de que o que é bom e vale a pena preservar sobre o mix urbano do porto existente não será sacrificado para dar lugar a um mar de torres de escritórios. Promessas recentes do prefeito para inserir 2.000 unidades de habitação pública são tardias e vagas, anuncidas para apaziguar os criticos e não perturbar os investidores.

(Diga-se de passagem que essa atitude comercialista liberal dos poderes públicos, e o compulsório silêncio, ou  debilitados protestos, dos arquitetos e urbanistas, constituem-se em um retrocesso quando comparado a algumas décadas atrás, quando a tenacidade desses profissionais conseguiram aprovar o Decreto do Corredor Cultural, privilegiando a cultura sobre os interesses comerciais.)sc

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Cena urbana do Morro da Providencia

E enquanto o prefeito promove a consolidação do projeto do Porto Maravilha, o Rio se alastra de forma incontrolável para oeste. Quilômetros de rodovias, condomínios de apartamentos cercados de grades, shoppings e engarrafamentos tornam a área da Barra da Tijuca mais visada. Aqueles que se podem dar ao luxo,  compram carros e apartamentos (às vezes mais de um) em uma torre de Barra, como se isso ainda fosse pleno “milagre brasileiro”, de 1974.

No coração da Barra está um símbolo de gastos perdulários e divisão de classes do Rio de Janeiro. Um novo centro de artes, a Cidade da Música, projetado pelo arquiteto francês Christian de Portzamparc, em frente a um shopping gigante com uma réplica da Estátua da Liberdade na frente . Um projeto iniciado pelo prefeito anterior, duas vezes acima do orçamento de 500 milhões de reais e implantado no meio de uma autovia, o edifício tem provocado iradas queixas, assinalando que ele está afastado tanto da cultura da cidade quanto de suas reais necessidades. Trata-se de um complexo de teatros feito em concreto, suportado por pilares gigantes. O edifício aproxima-se do absurdo. […] Os administradores ​​reclamam de seções inteiras de assentos inutilizáveis, ​​sem visibilidade, palcos idiotamente projetados, salas sem vestiários, praças varridas pelo vento e escadas indo a lugar nenhum.

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Outro absurdo recente. A Cidade da Música, afastado tanto da cultura da cidade quanto de suas reais necessidades.

Mais a oeste, a Vila Olímpica, acelerando a expansão urbana, nasce em um local que vai se tornar após os Jogos, outro faustoso conjunto habitacional. O desenvolvimento ameaça desalojar a Vila Autódromo, uma favela cuja historia remonta aos anos 1980. Pode-se andar tranquilo nas ruas esburacadas da favela, onde crianças saltam sobre um trampolim quebrado e ouve-se música vinda de uma igreja. Uma família me levou para o seu terraço no último piso com vista para a baía, sobre mangueiras e goiabeiras . Altair Guimarães, o chefe da associação de moradores, despertou de seu cochilo em uma rede, depois de trabalhar no turno da noite, sacudiu a cabeça. “Você não precisa massacrar o povo a fazer mega-eventos”, disse ele.

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Após anos de luta contra a ameaça de remoção, a comunidade da Vila Autódromo  conquistou provisoriamente a  sua permanência.

[…] Há outros projetos públicos que não fazem sentido. O Minha Casa Minha Vida é um programa que consiste em conjuntos constituídos por novos e sombrios blocos habitacionais ditos “de interesse social”, isto é, para os mais pobres, de baixo custo, proliferando ao redor da cidade, muitos desses na direção oeste, a uma longa distância do sitio original dos moradores reassentados. (Uma prática de remoção que remonta aos também longínquos anos sessenta.) Morar Carioca é também um programa público. Seu propósito é trazer arquitetos para trabalhar em conjunto com os moradores das favelas e funcionários públicos, prometendo soluções colaborativas para remodelação.

Apesar de o desejos dos moradores do Morro da Providência, consultados como parte do programa, fosse apenas ruas limpas e estradas pavimentadas,  a prefeitura decidiu, em vez disso de construir o teleférico, junto com um funicular e um centro cultural saudando a vida em favela. Todos esses projetos necessitam de despejos e remoções. Muitos moradores agora criticam o Morar Carioca.

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Entardecer na Lagoa de Jacarepaguá vista da Vila autódromo.

“As favelas não são apenas locais de pobreza, cujos moradores são objetos de projetos de renovação”. Apontou Jailson de Souza e Silva, um dos fundadores do Observatório de Favelas, uma ação social. “A participação é a chave.” Isso ainda não é uma prática comum aqui. Os representantes da comunidade da Providência ganharam uma liminar para adiar a construção do funicular. Roberto Marinho, de 38 anos, presidente da associação de moradores, trabalha como gerente de um escritório imobiliário no centro. A casa onde ele vive com sua esposa e dois filhos, disse ele, é uma das casas que devem ser  demolidas.

“Nós temos uma varanda e um terraço, e o apartamento Minha Casa Minha Vida que querem nos dar seria um grande passo atrás “, disse o Sr. Marinho. Favelas como Providência, incubadoras históricas do samba e funk brasileiros, poderia ser, sob uma certa ótica, modelos do que defende o prefeito Paes: enclaves diversos, densos, coesos e organicamente desenvolvidos, habitação acessível de facto – o oposto do Minha Casa Minha Vida .

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Teleférico no complexo de favelas do Alemão.

Mas esses teleféricos e atrações culturais, o kit de ferramentas padrão para cirurgias plásticas da cidade, hoje, dão boas ilustrações para folhetos Olímpicos e apresentações de PowerPoint, mesmo que eles não são necessariamente o que os moradores da Providência, e do Rio, mais precisam ou desejam. Ganhar o apoio da comunidade leva tempo. A colaboração é lenta. E o Rio, ou seus políticos) têm pressa.

“Queremos um diálogo, uma conversa”, foi como o Sr. Marinho colocou. “Eles nunca realmente nos ouvem.”

Aviso

Vinheta Casasabrasileiras

4 Respostas para “Um Rio dividido

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