O pensamento fraco na arquitetura III

Vinheta - Copia

 

SUSTENTABILIDADE

Toda a discussão atual sobre a sustentabilidade, que envolve também a arquitetura, pode ser colocada relacionando a oposição entre o Pensamento Forte e Pensamento Fraco. O primeiro, reflexo do pensamento iluminista,  reproduz tardiamente o espírito de Francis Bacon do domínio do Homem sobre as coisas, sustentando que a Natureza deveria ser obrigada a servir-lo, e este deveria extrair dela os seus segredos. E não somente os segredos, poder-se-ia acrescentar, mas também suas fontes de energia. Assim é que a modernidade é a época dos combustíveis fósseis, do carvão e do petróleo e a arquitetura dos grandes centros urbanos, os arranha-céus de aço e vidro, grandes incorporadores e consumidores de energia, e que são vilões do pensamento sustentável.

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As graves crises ocorridas nos anos 1970 colocaram em questão essa representação arquitetônica do mito do desenvolvimento. No ambiente da arquitetura, os extremistas falaram da falência da arquitetura moderna, os mais moderados em uma grave crise da qual não se sairia a não ser tomando um rumo novo.

O Pensamento Fraco considera um novo padrão de relação do Homem com a Natureza, utilizando fontes de energia renováveis, materiais recicláveis, reaproveitamento de águas, dispositivos de controle e novos sistemas de aquecimento e refrigeração, mais econômicos, como poços geotérmicos, placas radiantes etc. e utilizando conceitos recentes como a energia incorporada em materiais e processos.

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Entretanto é preciso atentar que há procedimentos que, embora sensíveis as questões de energia, reproduzem um círculo vicioso de mais tecnologia para resolver os problemas que a tecnologia criou e que não são afinados com o Pensamento Fraco. Muito pelo contrário. Vejam-se determinadas soluções de fachada utilizados atualmente, como duplas peles de vidro, que, sem dúvida, resolvem o problema de diminuir a carga térmica incidente sobre a fachada a que se propõem, mas a custa de um gasto de recursos contrários ao princípio da sustentabilidade. Estas soluções encaram os problemas de maneira quantitativa e não abrem mão da imagística modernista, para qual o vidro é o material do futuro, até mesmo a buscam e priorizam. A perspectiva centrista, a ideia do objeto único, a poética do vidro, o antidecorativismo, condutores da ideia do Pensamento Forte, continuam presentes.

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REGIONALISMO CRÍTICO

O Regionalismo Crítico, definido inicialmente por Alexander Tzonis e Liane Lefaivre, pode ser incluído nas estratégias do Pensamento Fraco. O esforço de recuperar a identidade dos edifícios e sítios pela valorização do contexto geográfico, histórico, cultural ou tectônico de maneira aberta, aspirando também modernidade e a participação na civilização universal, mas sem negar o passado e as condições locais, e admitindo, como contraparte crítica a utilização de elementos exóticos e não-familiares é, indubitavelmente, contrária ao pensamento dedutivo e centrista, característicos do Pensamento Forte. O Regionalismo Crítico designa uma arquitetura que tenta se opor ao esvaziamento do Movimento Moderno, sobretudo relacionado com a internacionalização de suas poéticas e mitigando por um maior desenvolvimento do senso de lugar e significado. O termo foi apropriado por Kenneth Frampton, que adotou-o em diversos trabalhos.

Shodam Barreirinhas

O Regionalismo crítico difere da atitude regionalista pura e simples, o qual, apesar de utilizar elementos regionais, o faz sem o sentido do universal. A questão, levantada por Paul Ricoeur é “Como tornar-se moderno e voltar às raízes; como reavivar uma velha, adormecida civilização e ser parte da civilização universal?[1]. O Regionalismo Crítico adota qualidades progressivas universais do Movimento Moderno, mas ao mesmo tempo reflete sobre a região e apropria-se de sua arquitetura, calcada em um estudo das tradições e história locais.

Alvar Aalto, Jørn Utzon, Mario Botta, Charles Correa, Álvaro Siza, Rafael Moneo, Tadao Ando, Charles W. Moore, Robert Venturi, são arquitetos bastante conhecidos que, de alguma forma, ou em algum momento, se utilizaram das práticas regionalistas em seus edifícios. Bem próximo de nós, podemos tomar como exemplo as casas projetadas por Lúcio Costa para o poeta Thiago de Mello. Estruturalmente, a técnica construtiva é o tradicional enxaimel, muito utilizado no período colonial, que consiste em um esqueleto de madeira, preenchido com pau-a-pique, ou alvenaria de adobe ou tijolos. A espacialidade interna, entretanto, em nada lembra os espaços bem definidos e fechados das casas setecentistas e oitocentistas. A sua matriz é o espaço fluido moderno.  Veja-se a semelhança com o espaço corbusiano da Villa Shodan, residência projetada e construída em Ahmedabad, na Índia, entre 1951 e 1956, pelo mestre.

Vidhan Sabha, Bhopal

NOVO URBANISMO

Embora com atividades formais apenas a partir dos anos 1990, os fundamentos do Novo Urbanismo tem origem mais remota, calcados nas críticas dos anos 1960 e 70, de pensadores como Lewis Munford, Jane Jacobs e Herbert Gans, nos Estados Unidos, e nas propostas de uma nova escala para a vida nos grandes centros, constantes dos trabalhos de Leo Krier e outros arquitetos da Tendenza, o Neorracionalismo Italiano dos anos 1960. Trata-se de uma busca do restabelecimento de padrões de desenho que eram predominantes anteriormente ao grande desenvolvimento da indústria automobilística, em meados do século XX. O Novo Urbanismo trabalha na interface entre a Arquitetura e disciplinas como desenho urbano, planejamento, gestão do meio ambiente, no inconstante aporte de melhor qualidade de vida no mundo atual.

Willoughby Street. Brooklin, Nova Iorque. 2006.

Muitos dos princípios que orientaram os projetos urbanos nos anos 1950 e 60, como a segregação de funções proposta pela Carta de Atenas, ou as grandes cirurgias promovidas pelos viadutos e autovias, o gigantismo que conduzia à construção de arranha-céus de aço, alumínio e vidro, o transporte individual, são legítimos representantes do Pensamento Forte. O pensar pequeno e pontual do Pensamento Fraco propõe a substituição dessas atitudes pelos opostos, priorização do transporte coletivo não poluente, como trens urbanos e metrôs sobre o transporte individual, a escala de vizinhança, a proximidade da residência e trabalho, ou locais de estudo e lazer, priorizando sempre o pedestre sobre os veículos automotivos.

A sobrevivência das cidades, e a qualidade de vida que ela pode propiciar depende de uma inteligente e sensível conciliação entre crescimento e uso sustentável de recursos. O pensamento racional, a razão dedutiva tende a ver as coisas de maneira quantitativa. Mas esta prova a cada dia não ser capaz de responder aos grandes desafios da metrópole: sistemas de transportes, reserva de habitações, questões de infra estrutura, consumo exagerado.

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O Novo Urbanismo propõe a reavaliação dos padrões de reflexão utilizados no planejamento urbano atual, identificando-se com a chamada razão fraca, no pensar pontual e qualitativo. Prega a reestruturação das políticas públicas e práticas desenvolvimentistas atendendo a novos princípios, tais como a diversidade de classes sociais coabitando em um mesmo empreendimento, privilegiando o pedestre ao carro, orientando os espaços segundo critérios de desenho universal, sustentabilidade, permeabilidade do solo. O Novo Urbanismo insere-se também em uma tendência afinada com a filosofia das diferenças e do Pensamento Fraco.

CONCLUSÃO

Apesar de todo o questionamento que pontuou os debates dos anos 1970 a 2000, ocasião em que todas as facetas do Pensamento Fraco, que acabamos de ver, tiveram muito espaço nas discussões acadêmicas e nas realizações profissionais, o Pensamento Forte na arquitetura continua prevalecendo nas realizações e no ensino, presente e atuante nos megaprojetos de torres cada vez mais altas e de equipamentos cada vez mais populosos, no ciclo virtual do uso de tecnologias cada vez mais avançadas, não somente para resolver as demandas costumeiras de utilização dos edifícios, mas também para responder aos problemas que esta mesma tecnologia criou no passado recente para as cidades, reafirmando a perspectiva de Jürgen Habermas da Modernidade como projeto inacabado, e que se reinventa a cada dia [2].

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A discussão parece que se perdeu ante os graves problemas que as metropoles vêm enfrentando. A atitude do Pensamento Fraco é o pensar pequeno, não pela restrição da abrangência de sua área de ação, mas pela sua requalificação com um olhar presente, um estar-aí, cuja perspectiva alcança tão longe quanto necessário, mas sem reduções simplificadoras. A consideração das diferenças, a inserção no contexto, a preocupação de dar voz e lugar para todos, de criar um novo padrão de convivência com o meio-ambiente, a diminuição do atrito entre a civilização e a natureza são os temas para os quais o Pensamento Fraco propõe uma nova resposta.

A grande arquitetura não deve ser, pelo menos não deve ser restringir, a uma arquitetura grandiloquente, mas uma arquitetura em que os grandes valores encontrem abrigo e ressonância. A sensibilidade por tradições culturais diferentes dentro da comunidade modificam significativamente e redefinem a atividade do arquiteto e planejador contemporâneo.

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Não que o Pensamento Fraco em arquitetura, entretanto, pense ingenuamente em uma impossível volta ao passado. Tampouco pretende confinar uma comunidade em seu habitat. A grande questão atual para o arquiteto é complexa e indefinida: trabalhar na estreita faixa intermediária entre o vinculo a um lugar e uma consciência de sua universalidade. Entre o pensar pequeno e as demandas cada vez maiores, entre a poética do monumental e a economia de meios, entre o simbólico e o pragmático,


Referencias:

CHOAY. Françoise. “Monumento e monumento histórico” in: A alegoria do Patrimônio. São Paulo: Unesp,2006

COLIN, Silvio. A poética das diferenças na obra de Robert Venturi e Denise Scott Brown. Rio de Janeiro: Proarq. FAU. UFRJ. 2010. Tese de Doutorado.

FRAMPTON, Kenneth. História crítica da arquitetura moderna. São Paulo: Perspectiva, 1996.

Habermas, Jürgen. “Modernidade – um projeto inacabado” In: Arantes, O. F. e Arantes P. E. Um ponto cego no projeto moderno de Jürgen Habermas. São Paulo: Brasiliense, 1992.

LYOTARD, Jean-François. A condição Pós-Moderna. Rio de Janeiro: José Olympio, 2006.

VATTIMO, Gianni. O fim da Modernidade. Niilismo e hermenêutica na cultura pós-moderna. São Paulo: Martins Fontes, 1996. P. 83

VATTIMO. Gianni. “The end of modernity, the end of the project ?” In: LEACH, Neil (Ed.). Rethinking architercture: A reader in cultural theory. Londres, Nova Iorque: Routledge, 1997. P. 152. Tradução nossa.Idem, p. 153.

VENTURI, Robert. “Diversity, relevance and representation in historicism”. Architectural Record, Junho de 1982. Vol 170, N0 8, Hightstown, NJ. McGraw-Hill.

VENTURI, Robert. “Context in Architectural Composition” MFA Thesis, Princeton Un. In: Iconography and electronics upon a generic architecture. Cambridge, MA: Mitpress,1996. P. 335. Tradução nossa.


[1] Ricoeur P. History and Truth, 1965, p. 271-284 (Or. Histoire et Verité, La Seuil, 1955.) Apud Frampton, K História Critica da la arquitectura moderna. Barcelona, Gustavo Gili, 1994, p. 318.

[2] Habermas, Jürgen. “Modernidade – um projeto inacabado” In: Arantes, O. F. e Arantes P. E. Um ponto cego no projeto moderno de Jürgen Habermas.São Paulo: Brasiliense, 1992.

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