Arquivo da categoria: Teoria da arquitetura

Metabolismo. SIRH e o destino de uma ideia.

Metabolismo.

SIRH e o Destino de uma Ideia.

Silvio Colin

Os primeiros meses de 2012 trouxeram tristes notícias para uma ideia muito cara à arquitetura dos anos 1970. Em primeiro lugar foi a morte de Claude Prouvé, e depois, a demolição de sua mais importante obra, a construção experimental do SIRH. Claude era filho do ilustre arquiteto Jean Prouvé, um dos nomes mais importantes das vanguardas arquitetônicas do século XX, de importante participação na experimentação tecnológica para a indústria da arquitetura. O SIRH era uma uma representação francesa do movimento Metabolista.

Centro de radiodifusão Yamanashi.

Centro Yamanashi de Comunicações. 1967. Arquiteto Kenzo Tange.

O Metabolismo foi um movimento arquitetônico que cresceu após a Segunda Guerra Mundial, naquele momento em que novas tecnologias desenvolvidas na guerra eram disponibilizadas para a sociedade civil. A ideia, de inspiração tecnológica, de que a solução para todas as questões arquitetônicas estaria na técnica, partilhava uma visão do mundo do futuro, definitivamente urbano, cujas cidades seriam habitadas por uma sociedade de massas, e seus problemas seriam resolvidos com magníficas estruturas flexíveis inspiradas no crescimento orgânico reinterpretado tecnologicamente, em larga escala.

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Os pilares de Mies*

Os pilares de Mies

Silvio Colin

Pilar do Pavilhão de Barcelona

Neste texto faremos uma análise  de um simples elemento – um pilar – em três momentos diferentes da obra de Mies van der Rohe, quais sejam: no Pavilhão de Barcelona, no início de sua carreira, na Bauhaus; No Crown Hall, quando de sua migração para os Estados Unidos; e na Neue Nationalgalerie, na sua volta a Berlim. Pensamos que  esta análise pode nos revelar muito sobre as modificações de seu pensamento com o decorrer do tempo, e mesmo lançar alguma dúvida sobre a correção de sua sentença construtivista, em que ele diz não reconhecer problemas de ‘forma’, mas apenas questões de ‘construção’, dita em uma época em que se discutia muito os fundamentos do que seria depois conhecido como Movimento Moderno na Arquitetura, no princípio dos anos 1920. Naquela época, Mies pertencia ao grupo que publicava o periódico G – de Gestaltung, ‘estrutura’ – e mantinha muitos contatos com o movimento holandês do Neoplasticismo, divulgado pela revista De Stijl. Continuar lendo

Prairie Houses

Prairie Vinheta

Prairie Houses

Diferentemente do que o nome pode sugerir, não se trata de casas rurais (Prairie Houses que dizer “casas da pradaria”) mas de casas urbanas nos subúrbios de diversas cidades nos estados de Wisconsin [Spring Green] e Illinois [Chicago]. O nome reflete a característica de sua implantação horizontal em grande área plana. Nos dez primeiros anos do século XX, Frank Lloyd Wright construiu mais de cem Prairie Houses. Eram casas  para famílias abastadas, situadas em áreas verdes, funcionais, com uma articulação volumétrica e uma sintaxe espacial muito próprias. Geralmente com partido em cruz ou duplo “T”, envolvendo a lareira – centro de força e ponto de cruzamento dos eixos imaginários. As áreas se sucedem de acordo com sua conveniência recíproca. Apresentavam lajes com grandes balanços e telhados pouco inclinados, e longos renques de janelas em seqüência.

Coonley House - Cópia

Avery Coonley House. Riverside. Chicago. 1907-8 Continuar lendo

Malapropismo

Malapropismo em Arquitetura

2ª publicação. Ampliada.

Publicado inicialmente em 17/04/2011

Silvio Colin

vinheta malapropismo

O malapropismo, em arquitetura, acontece quando a mensagem veiculada pela forma arquitetônica é inapropriada ou inadequada ao seu conteúdo, sobretudo quando esta causa um efeito jocoso.  O assunto foi extensamente explorado por Charles Jencks, ao criticar a alienação dos arquitetos afiliados ao Estilo Internacional tardio e sua resistência à adoção da linguagem simbólica.

Referindo-se à refinada linguagem de Mies van der Rohe no conjunto do Illinois Institute of Tecnology (IIT), e ao seu extremo purismo, que desconsiderava qualquer alusão simbólica, Jencks chama a atenção que a Casa de Caldeiras, que mais parece a catedral do campus, e a Igreja, que, por sua vez, parece uma casa de caldeiras.

Casa de Caldeiras do IIT. Mies van der Rohe 1947.

Legenda de Jencks: “A tradicional forma da basílica, com a nave central e dois corredores laterais. Existe até um clerestório, em sistema de baias e um campanário, para mostrar que isto é uma catedral” [1]

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Desconstrutivismo

O FAZER DESCONSTRUTIVISTA

Silvio Colin

Trecho de ensaio publicado na revista AU, nº. 181. Abril de 2009. P. 84-9.

Reedição. Publicado neste Blog em 11/06/2010 com o título Para entender o Desconstrutivismo

Museum Guggenheim Bilbao. Imagem http://www.nbnnews.com

O pensamento do arquiteto tem sido formado por algumas estruturas das quais não se liberta a não ser mediante um grande esforço de “leitura atenta”, de trabalho desconstrutivo. E este trabalho se insere no mesmo projeto de desconstrução das tradições da cultura ocidental e partilha os mesmos interesses. O alvo primeiro da Desconstrução é o chamado logocentrismo, i. e. o privilégio dado à lógica e à razão, sobre outras formas de apreensão da realidade e busca da verdade. Interessa-nos no momento esclarecer este  tipo particular de logocentrismo, próprio da arquitetura:  conceitos estruturantes particulares do trabalho dos arquitetos, que cumprem a mesma função dos conceitos estruturantes do pensamento ocidental na literatura e filosofia e que são objetos da desconstrução dos escritores e filósofos pós estruturalistas, não mais nos textos, mas na elaboração de projetos (forma de “escritura” própria do arquiteto). Continuar lendo

Híbrido Conectado

Híbrido Conectado

Linked Hybrid

Pequim, 2003-9. Arquiteto Steven Holl

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A ideia não é nova. Ao contrário, vem com algumas décadas de uma história responsável pelos maiores fracassos do Movimento Moderno, mas vem revigorada. O Híbrido Conectado é uma mega-estrutura, no melhor modelo dos brutalistas dos anos 1960 e 1970. Naquela época falhou e viu seus grandes edifícios, muitos deles premiados pelos associações de arquitetos, como é o caso do Conjunto Pruit-Igoe, em Saint-Louis[1], ou consagrados pela crítica, como é o caso do Robin Hood Gardens, de Alison e Peter Smithson[2], ambos condenados, o primeiro implodido em 1972. Continuar lendo

Arquitetura do Milagre Brasileiro

“Milagre Brasileiro” é o nome aplicado , não sem certa ironia, ao período de expansão econômica acelerada, com taxas de crescimento acima de 10%, durante os governos militares, de 1964 a 1985. Esta expansão era artificial, baseada em empréstimos externos, gerando uma crescente inflação que chegou a níveis insuportáveis no final dos anos 1980. Corresponde a um período de governo autoritário e ufanista, criador de lemas como “Ninguém segura este país” e “Brasil, ame-o ou deixe-o”.

Este momento da História do Brasil produziu uma arquitetura bem específica, da qual pretendemos falar. Impossível tarefa, entretanto, sem compreendermos primeiro este momento único da cultura mundial e seus reflexos na cultura brasileira, nas artes literatura cinema etc. Mergulhemos então, primeiramente neste contexto. Continuar lendo