Arquivo da categoria: Urbanismo pós-moderno

O pensamento fraco na arquitetura III

Vinheta - Copia

 

SUSTENTABILIDADE

Toda a discussão atual sobre a sustentabilidade, que envolve também a arquitetura, pode ser colocada relacionando a oposição entre o Pensamento Forte e Pensamento Fraco. O primeiro, reflexo do pensamento iluminista,  reproduz tardiamente o espírito de Francis Bacon do domínio do Homem sobre as coisas, sustentando que a Natureza deveria ser obrigada a servir-lo, e este deveria extrair dela os seus segredos. E não somente os segredos, poder-se-ia acrescentar, mas também suas fontes de energia. Assim é que a modernidade é a época dos combustíveis fósseis, do carvão e do petróleo e a arquitetura dos grandes centros urbanos, os arranha-céus de aço e vidro, grandes incorporadores e consumidores de energia, e que são vilões do pensamento sustentável.

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As graves crises ocorridas nos anos 1970 colocaram em questão essa representação arquitetônica do mito do desenvolvimento. No ambiente da arquitetura, os extremistas falaram da falência da arquitetura moderna, os mais moderados em uma grave crise da qual não se sairia a não ser tomando um rumo novo. Continuar lendo

Arquitetura e crise de energia

ARQUITETURA E CRISE DE ENERGIA

  Paolo Portoghesi [1]

Do livro “Dopo l’architettura moderna”. Roma: Laterza, 1980. Tradução brasileira “Depois da arquitetura moderna” São paulo: Martins Fontes, 2002. [2]

Escrito no final dos anos 1970, este texto, um clássico da crítica arquitetônica, mostra ainda uma extrema atualidade.


O sistema industrial moderno, essa máquina gigantesca que unifica as sociedades mais desenvolvidas, a despeito das suas diferenças políticas e institucionais, e projeta a sombra da alienação tanto sobre o mundo capitalista quanto sobre o socialismo “real”, construiu seu império sobre alicerces de barro, que o passar do tempo enfim revelou. Este sistema apoiou-se numa ideia de natureza como uma entidade infinita, da qual se poderia extrair indefinidamente a energia necessária para alimentar o moto-contínuo da produção. Quando percebemos que o sistema industrial não deve prestar contas somente de seu capital artificial, mas também de um segundo capital, este não recuperável ­­– a natureza, o grande mito do desenvolvimento infinito caiu por terra, dando lugar, porém, a outro mito igualmente improdutivo: o da crise sem saída. Depois de explorar por tanto tempo o capital da natureza, de saquear a terra como a uma cidade conquistada, o sistema prefere hoje lamentar-se diante da perspectiva inelutável do “fim da civilização” a reexaminar o problema buscando uma “nova aliança” com a natureza, um novo equilíbrio.

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Lever House.Nova Iorque, 1951-2. Arquiteto Gordon Bunshaft. De Skidmore, Owins e Merrill (SOM)

O arranha-céu de vidro, inventado nos anos 50 e ainda hoje considerado modelo insuperável para edifícios de escritórios, é também um exemplo de irracionalidade dificilmente superável. Continuar lendo

Quadros de uma metrópole motorizada

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De nada adianta falar em acessibilidade, cidadania, sustentabilidade, se estes conceitos ainda estão muito distantes do dia-a-dia do cidadão comum e ignonados pelas autoridades. Vemos a todo minuto nossos direitos a estes bens do convívio humano serem agredidos e usurpados. Ninguém que viva em uma metrópole pode dizer que está a salvo de assassinatos, estupros, assaltos. Mas esta é a macrofísica dos atentados contra a dignidade humana. Existe também uma microfísica na qual o desrespeito é gerado e acalentado. Esta se compõe desses conceitos mencionados acima, os quais, quando observados, mostram o grau de nossa evolução em direção à cidadania, e por que não dizer, a nossa superação da condição latente de predador, que ainda trazemos conosco. A seguir, alguns quadros desse cotidiano de desrespeito.

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A noiva mecânica

Silvio Colin

Do livro Pós-modernismo. Repensando a arquitetura. Rio de Janeiro, Uapê, 2002.

Marshall Mc Luhan e seus livros seminais dos anos 1960.

Hoje quase um desconhecido fora dos meios especializados, mas seguramente o teórico mais lido no mundo ocidental na década de 1970, Marshall McLuhan referia-se ao automóvel como “a noiva mecânica”, atentando para o seu significado simbólico como objeto sexual e fonte de status. Na contramão da cultura da época, de grandes intervenções cirúrgicas nas cidades em benefício do carro particular, do apogeu da indústria automobilística americana e do melhor momento da produção de petróleo, o sociólogo canadense tempera com bom humor seu ataque contundente:

“Todos os hipopótamos, rinocerontes e elefantes do mundo reunidos numa cidade não dariam nem para começar a criar a ameaça e a intensidade explosiva da experiência horária e diária do engenho de combustão interna”[1]. Continuar lendo