Arquivo da tag: Crítica da arquitetura

O pensamento fraco na arquitetura III

Vinheta - Copia

 

SUSTENTABILIDADE

Toda a discussão atual sobre a sustentabilidade, que envolve também a arquitetura, pode ser colocada relacionando a oposição entre o Pensamento Forte e Pensamento Fraco. O primeiro, reflexo do pensamento iluminista,  reproduz tardiamente o espírito de Francis Bacon do domínio do Homem sobre as coisas, sustentando que a Natureza deveria ser obrigada a servir-lo, e este deveria extrair dela os seus segredos. E não somente os segredos, poder-se-ia acrescentar, mas também suas fontes de energia. Assim é que a modernidade é a época dos combustíveis fósseis, do carvão e do petróleo e a arquitetura dos grandes centros urbanos, os arranha-céus de aço e vidro, grandes incorporadores e consumidores de energia, e que são vilões do pensamento sustentável.

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As graves crises ocorridas nos anos 1970 colocaram em questão essa representação arquitetônica do mito do desenvolvimento. No ambiente da arquitetura, os extremistas falaram da falência da arquitetura moderna, os mais moderados em uma grave crise da qual não se sairia a não ser tomando um rumo novo. Continuar lendo

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Croissant de Ipanema

Vinheta Croissant

A Associação de Moradores de Ipanema pediu há uns três anos, e o governador do Estado do Rio vai atender, segundo a publicação em um Jornal carioca, o fim de uma cobertura de acesso ao Metrô situada na Praça General Osório, em Ipanema. A construção é chamada pejorativamente de “croissant”, e qualificada de “horrorosa” e “trambolho”, pela coluna de Ancelmo Gois de “O Globo”. Segundo a coluna, a estrutura será substituída por outra “que parece se integrar melhor à paisagem da praça.”

Croissant de Ipanema - Cópia

Entrada do Metrô da Praça General Osório. O “Croissant”.

Nova entrada do metro

Futura entrada do Metrô da Praça General Osório.

O fato é expressivo por diversos aspectos que, juntos, atestam para a indigência de nossa critica arquitetônica e também para mau uso que fazem desta os jornalistas, certamente despreparados para tal função, mas que ocupam um espaço deixado vago por nossos profissionais. Continuar lendo

A poética da arquitetura de interesse social

Este texto aborda a questão da poética arquitetônica nos conjuntos habitacionais de interesse social. Embora muitas vezes seja relegada a segundo plano, outras vezes até mesmo excluída das preocupações dos projetistas para este tipo de arquitetura, existirá sempre um grande campo de possibilidades, no plano estético, de escolha da configuração final de um edifício, apesar de grandes restrições de toda ordem, sejam estas técnicas, funcionais ou econômicas. Isto apesar de certa crença em contrário, que muitas vezes até coloca em oposição as preocupações estéticas com aquelas de ordem social, rotulando as primeiras de alienadas, elitistas, escapistas etc. e apesar também de a doutrina funcionalista do Movimento Moderno estabelecer os feitos poéticos como secundários em relação às soluções funcionais.

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Arquitetura Pós-milagre

O período compreendido entre Decreto de Anistia, de 1979, e os últimos anos do século XX, no Brasil, chamamos livremente de Abertura Política, ou simplesmente Período da Abertura, pois era termo vigente a expressão “Abertura Total e Irrestrita” para fazer referencia à mudanças políticas então ocorridas como a volta das Eleições para Presidentee Governadores, o pluripartidarismo, a anistia aos cidadão que tiveram seus direitos cassados e a volta dos exilados políticos. As manifestações culturais ocorridas então têm características muito próprias, em parte diferentes do período anterior, o que nos autoriza a falar de uma Arquitetura da Abertura, ou de uma Arquitetura Pós-Milagre Brasileiro. É este painel de atitudes ligadas à arquitetura que nos interessa neste artigo. Continuar lendo

Malapropismo

Malapropismo em Arquitetura

2ª publicação. Ampliada.

Publicado inicialmente em 17/04/2011

Silvio Colin

vinheta malapropismo

O malapropismo, em arquitetura, acontece quando a mensagem veiculada pela forma arquitetônica é inapropriada ou inadequada ao seu conteúdo, sobretudo quando esta causa um efeito jocoso.  O assunto foi extensamente explorado por Charles Jencks, ao criticar a alienação dos arquitetos afiliados ao Estilo Internacional tardio e sua resistência à adoção da linguagem simbólica.

Referindo-se à refinada linguagem de Mies van der Rohe no conjunto do Illinois Institute of Tecnology (IIT), e ao seu extremo purismo, que desconsiderava qualquer alusão simbólica, Jencks chama a atenção que a Casa de Caldeiras, que mais parece a catedral do campus, e a Igreja, que, por sua vez, parece uma casa de caldeiras.

Casa de Caldeiras do IIT. Mies van der Rohe 1947.

Legenda de Jencks: “A tradicional forma da basílica, com a nave central e dois corredores laterais. Existe até um clerestório, em sistema de baias e um campanário, para mostrar que isto é uma catedral” [1]

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Louis I. Kahn

Silvio Colin

Louis I. Kahn foi um dos mais importantes arquitetos do século XX, da estatura de Le Corbusier, Alvar Aalto ou Mies van der Rohe, embora não seja tão conhecido pelos estudantes brasileiros como estes outros. Em suas obras apareceram grandes inovações formais, confrontando o Espírito da Época de meados do século XX. A composição é sempre feita de formas geométricas elementais, volumetria simples e diáfana, estruturas macivas, materiais aparentes, e faz dialogar a mais alta tecnologia construtiva com técnicas estruturais seculares. Em um tempo em que vigia a expressão coletiva e o anti-individualismo do Estilo Internacional, Kahn devolve ao arquiteto a sua expressão pessoal. À leveza e transparência da arquitetura do vidro, Kahn vai preferir os grandes panos cegos de concreto ou tijolos cerâmicos. A espacialidade funcionalista sera substituída, na sua obra, pelos espaços monumentais; os seus “espaços servidos” ganharão uma importância que não tiveram nos últimos sessenta anos. Louis I. Kahn foi uma influência definitiva para as novas gerações.

Assembléia Nacional. Dacca. 1962.

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A corrente de cristal

Vinheta

A Corrente de Cristal, em alemão “Die Glaserne Kette”, foi o nome com que se designou um conjunto de cartas utópicas trocadas entre um seleto grupo de arquitetos, liderado por Bruno Taut  entre 1919 e 1920, enaltecendo as virtudes do vidro, visto como material do futuro. Estes arquitetos, motivados pelo vazio ideológico existente então na Alemanha pós-guerra, buscavam alternativas estéticas e práticas para a arquitetura, rejeitando o materialismo e positivismo que caracterizavam o sistema político derrotado juntamente com o kaiser Guilherme II. Essas cartas descreviam visões de uma sociedade ideal e uma arquitetura fantástica por meio de textos e desenhos.

Cristal sobre uma esfera. Projeto para um edifício religioso. Desenho de Wassili Luckhardt. Imagem PEHNT, p. 37, com intervenção. Continuar lendo