Concursos marcantes do século XX

Silvio Colin

Nossa intenção, neste texto, é nos debruçarmos sobre os grandes concursos internacionais de idéias de arquitetura do século XX e explicarmos algumas de nossas considerações sobre estes. Na verdade, os arquitetos prezam, não sem razão, a premiação em um concurso. É um galhardão. Algo assim como ganhar um Oscar. Entretanto, na maioria das vezes, os resultados dos concursos tem um caráter conservador, ou mesmo reacionário, e muitas vezes são um entrave para as idéias novas. No século XX houve honrosas exceções, dentre as quais talvez a mais importante tenha sido o concurso do Centro Pompidou, que deu ao mundo os primeiros vagidos da arquitetura high-tech, mas na maioria dos concursos importantes, prevaleceu o conservadorismo. Falaremos de três concursos, marcos do Movimento Moderno, pela consideração e estudo das propostas descartadas de grandes mestres como Walter Gropius, Le Corbusier, Hannes Meyer, Eric Mendelsohn, Moisei Ginsburg entre outros: o concurso do Chicago Tribune, o Palácio dos Sovietes e a Liga das Nações.

Edifício do Chicago Tibune

O concurso ocorreu em Junho de 1922, e pagou 100 mil dólares em prêmios, metade para o 1º colocado, que deveria ser “o mais belo e marcante edifício de escritórios do mundo”. A competição durou alguns meses e recebeu, ao final, mais de 260 trabalhos. O vencedor foi John Mead Howells e Raymond Hood, nomes que se ligariam a outros importantes edifícios de Nova Iorque nas duas décadas que se seguiram, como o Daily News, o Rockfeller Center e o Mc Graw-Hill. Seu edifício era um desenho revivalista neogótico, inclusive com falsos arcos-botantes no coroamento.

O proprietário do periódico, Coronel Robert McCormack, não era um exemplo de progressivismo e é bem provável que se deva a ele a escolha. Sendo o lema do empresa “Um jornal americano para americanos”, é surpreendente ter despertado a atenção de importantes arquitetos europeus, como Eliel Saarinem, cujo projeto foi considerado o melhor pela comunidade arquitetônica, com o aval de Louis Sullivan. Participaram do concurso o grande arauto purista dos novos tempos, Adof Loos, e grandes representantes do pensamento socialista da Bauhaus, Gropius e Bruno Taut.

A premiação foi muito criticada, de vez que o traço gótico era contrário à tendência modernizadora iniciada pela Escola de Chicago e pela arquitetura funcional européia. As propostas mais influentes seriam as de Eliel Saarinen e Walter gropius. Dentre os edifícios que retomaram a idéia de Saarinem estão o edifício da Gulf de Alfred Finn, Kenneth Franzhein e J. Carpenter, uma quase literal adaptação, e, mais recentemente, com novos materiais, o edifício da West Madison Street 181 de César Pelli.

A proposta de Adolf Loos foi a mais intrigante. Muitos não a consideram séria, mas uma anedota arquitetônica, envolvendo os referentes “coluna de jornal” e “coluna arquitetônica”. Esta “coluna” se assenta sobre um bem proporcionado edifício de 12 pavimentos, bem ao estilo de Loos. O mais surpreendente é confrontar o seu projeto com a prédica anti-ornamento então desenvolvida por este arquiteto. Talvez possa servir como explicação o fato de Loos, diferentemente dos outros vanguardistas como Le Corbusier, Oud, Mies, Gropius etc. separar claramente a questão do ornamento da questão da simbolização, o que pode ser visto em obras marcantes de sua autoria, como o edifício Goldman and Salatsch, em Viena.

O projeto de Gropius, seu primeiro projeto para um arranha-céu deste porte, era uma aplicação dos princípios da Bauhaus e constitui-se em uma significativa resposta européia para um problema tipicamente americano do edifício alto. Livre de qualquer traço eclético ou elemento decorativo histórico, usava entretanto as janelas Chicago à moda de Sullivan.  Cabe destacar as interrupções arrítmicas no sentido da altura, que por um lado negam  o funcionalismo obsessivo que viria a marcar a arquitetura americana influenciada pelos vanguardistas europeus, anos mais tarde, por outro se ligam claramente ao desenho neoplasticista, ou talvez uma citação a Frank Lloyd Wright.

Sociedade das Nações

Fundada em 1919, logo após o encerramento da 1ª Guerra Mundial, precursora da Organização das Nações Unidas, a Sociedade das Nações, ou Liga das Nações foi a primeira organização permanente de segurança internacional cujo objetivo principal era zelar pela paz mundial. Em 1926 foi promovido um concurso internacional para um complexo de edifícios destinado a abrigar a organização no Parque Ariana, em Genebra. O concurso atraiu o interesse de 377 arquitetos e o júri, presidido pelo prestigioso arquiteto Victor Horta, conferiu diversas menções, mas, ao final, não recomendou nenhum projeto. Desejando evitar rusgas logo no início das atividades o júri do concurso designou uma comissão de diplomatas cuja tarefa era selecionar o projeto que mais se adequava à demandas práticas e estéticas da organização.

Grande parte dos arquitetos apresentou propostas tradicionais e classicizantes. As vanguardas modernistas foram representadas por Le Corbusier, Hannes Meyer e Hanz Wittwer, que recebeu uma menção honrosa, e Richard Neutra e Rudolf Schindler. Outro projeto merecedor de menção honrosa foram os arquitetos belgas Hendrickx and De Ligne. Em última instância, cinco arquitetos principais foram escolhidos entre os projetos selecionados para colaborar em um projeto final: Carlo Broggi, da Itália, Julien Flegenheimer, da Suíça, Lefèvre Camille e Henri-Paul Nénot, da França, e József Vago, da Hungria.

Quando a solução, inicialmente premiada, de Le Corbusier foi posta de lado com todos os outros, Le Corbusier ficou furioso, e ao perceber que o projeto por Henri Nénot incorporava algumas de suas idéias, tentou processar a Liga das Nações por a violação de direitos autorais, em 1931. Em seu textos sobre o projeto, em suas obras completas, Corbu fala de falta de escrúpulos dos organizadores e ultraje por um ato de injustiça etc. Segundo suas palavras, seu projeto encorporava o espírito de nosso tempo e respondia a demandas contemporâneas, com os aspectos técnicos, estruturais, acústicos, econômicos esrupulosamente atendidos.

No projeto de Meyer e Wittwer não se pode ignorar a inspiração no Palácio de Cristal, com sua gigantesca cúpula de aço e vidro. O jogo entre modularidade e unidades repetidas foi apresentada pelos autores como uma busca de uma poética socialista para os edifícios. Comparada com a proposta de Corbusier, a sua é rude e radical, sem concessoes não vinculadas à edilícia e ao programa, uma metáfora da organização socilista, como foi dito.

Palácio dos Sovietes

O Palácio dos Sovietes destinava-se a abrigar um Centro Administrativo e uma Casa do Congresso em Moscou, perto do Kremlin, no sítio da então demolida Catedral de Cristo Salvador. Foi pensado poucos anos depois da criação da União
Soviética, 1917, mas somente em fevereiro de 1931 foi realizado um primeiro concurso envolvendo 15 oficinas soviéticas de arquitetura, terminado em maio, sem vencedores. O segundo concurso, público e internacional, foi instituído em julho de 1931 e recebeu 160 projetos, sendo 24 estrangeiros. Entre estes, projetos de Le Corbusier, Walter Gropius, Erich Mendelsohn, Hans Poelzig,  Hannes Meyer e August Perret.

O concurso foi vencido pelo arquiteto Boris Mihailovich Iofan, nascido em Odessa e formado em Roma, apresentando características neoclássicas e monumentais, bem diferentes da orientação modernista. A decisão final parece ter sido tomada diretamente por Iosef Stalin, que citava nominalmente Iofan e propunha mudanças, como elevar a torre central, fazê-la mais alta que a Torre Eiffel, uma obsessão dos soviéticos desde o projeto da III Internacional, colocar no topo a foice e o martelo e projetar monumentos de Lenin, Marx e Engels na frente do edifício.

Se construída, teria se tornado a mais alta estrutura da época. A construção iniciou-se em 1937, e interrompeu-se com a invasão alemã em 1941, quando sua estrutura de aço foi desmontada, para ser usada em fortificações e pontes. Depois, nunca mais foi retomada. A Catedral do Cristo Salvador foi recontruída em 1995-2000.

A decisão reacionária sobre o vencedor causou grande revolta entre os arquitetos vanguardistas europeus. Le Corbusier e Sigfried Giedion, em nome do CIAM, reclamaram diretamente a Stalin, usando uma retórica comunista, dizendo que a decisão do conselho era “um insulto ao espírito da Revolução e ao Plano Quinquenal” do próprio Stalin. Era, na verdade, uma traição ao espírito progressista das vanguardas soviéticas do Construtivismo, que recebiam naquele momento, um golpe de morte.

O projeto de Le Corbusier foi um dos mais inspirados de sua carreira. Bem diferenciado de sua obra da época e mesmo dos projetos que se seguiram. Nele há uma marcante orientação construtivista, embora embalada pelo viés poético inconfundível e inimitável de Corbu. Tem um discurso estrutural determinante e uma engenhosa solução para cobrir o grande auditório para 15 000 pessoas, com vigas protendidas, apoiadas em uma extremidade e suspensas na outra. Foi realmente lamentável não ter sido construído, pois mesmo rejeitado, influenciou as gerações seguintes e a história do Movimento Moderno ficou definitivamente marcada.

O programa contemplado por Le Corbusier continha um grande auditório com platéia de 15.000 lugares e palco para 1.500 atores, ou outro auditório para 6.500 lugares na platéia, para fins múltiplos, como as reuniões da Internacional Socialista, conferências, apresentações teatrais e cinematográficas. Em anexo, mais duas salas de 500 lugares e duas de 200. Entre os dois conjuntos principais, um local de grandes manifestações que comportava 50.000 pessoas, com púlpito para oradores. Completava o programa considerável aparato de espaços de apoio como vestiários, salas técnicas, foyers, restaurantes etc.

A estrutura principal, o grande arco parabólico foi certamente inspirado nos hangares para aeronaves de Orly, de Eugène Freyssinet, mestre do concreto protendido, embora o arco proposto por Corbu seja consideravelmente maior: 160 m de largura por 90 m de altura contra 90 m de largura por 60 m de altura dos hangares de Freyssinet. Os grandes problemas acústicos e de visibilidade, presentes em tal estrutura, foram cuidadosamente estudados pelo arquiteto com a ajuda de especialistas, e descrito pormenorizadamente no seu memorial, publicado nas suas obras completas.

A decisão final contou ainda com duas etapas, no final das quais, em maio de 1933, foi declarado o vencedor Boris Iofan, porém dois arquitetos neoclacissicistas, Vladimir Shchuko e Vladimir Gelfreikh foram designados para a equipe, e o projeto ficou conhecido por esquema Iofan-Shchuko-Gelfreikh. Na solução original havia uma estátua relativamente pequena do “Proletário Livre”. Uma estátua de Lenin apareceu após a intervenção de Stalin, que teria dito que “o Palácio dos Sovietes é um monumento a Lenin. Não temam a altura. Busquem-na”. A altura total cresceu de 260 m para 415 m. O bloco principal oferecia 21.000 lugares na platéia. O auditório menor tinha 6.000 lugares.

LINKS:

http://en.wikipedia.org/wiki/Palace_of_the_Soviets

http://en.wikipedia.org/wiki/Palace_of_Nations

http://en.wikipedia.org/wiki/Tribune_Tower

http://www.cca.qc.ca/en/collection/1447-competition-for-the-league-of-nations-building-geneva

BIBLIOGRAFIA

BOESIGER, W e STORONOV, O. Le Corbusier et Pierre Jeanneret. Oeuvre Complète. Zurich: Les Editions d’Architecture, 1964.

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