Tipos e padrões da arquitetura civil colonial – I

Silvio Colin

VOLUMETRIA CONSTRUTIVA

Os mais importantes fatores determinantes das formas arquitetônicas de nossa arquitetura colonial são de ordem econômica e técnica. Assim é que muitas das possibilidades da arquitetura praticada na Europa não são vigentes aqui devido à falta de recursos econômicos. A escolha das técnicas construtivas, muitas vezes a sua má realização, e a relativa fragilidade das nossas construções, apontada pelos diversos cronistas da época têm sua explicação na escassez de recursos alocados na construção mesmo dos mais importantes edifícios.

Somente a partir de 1630 aproximadamente podemos falar de algum padrão mais definitivo com relação à construção. É nessa época, por exemplo, que a cobertura vegetal começa a ser substituída pela telha cerâmica[1], exceto as mais modestas, como as casas de sertanejos, afastadas das fazendas, e a senzalas. No desenho abaixo estão representados os tipos mais utilizados. A “meia-água” (1) era geralmente utilizada em construções de menor importância, como o rancho e a cozinha. O telhado de duas águas (2) era muito utilizado em construções urbanas, sobretudo em casa geminadas, um padrão dos mais comuns nas cidades, nas casas de porta e janela, meia-morada, sobrados, etc. O madeiramento do telhado, neste caso consistia apenas nas terças transversais e caibros, como nos informa Vaultier[2]. O telhado de quatro águas (3) era a cobertura mais comum nos pavilhões, o tipo construtivo mais utilizado para construções de maior porte, como casas-grandes, equipamentos públicos menores e mansões. Uma variante deste é o telhado de quatro águas com lanternim (4), que objetivava melhor iluminação e ventilação do telhado, bem como o uso alternativo desta área. O claustro (5) era a forma preferida para construções que aspiravam maior monumentalidade.

Tipologia volumétrica

Com as limitações de largura impostas pelas técnicas construtivas, desde que os vão eram vencidos apenas com vigas de madeira, o que determinava uma largura de algo em torno de 6 m para as alas, e ainda a necessidade de melhor  iluminação e ventilação dos compartimentos praticamente impunha o pátio central. Esta solução era bem adequada para edifícios de maior porte, como palácios, paços, e outras construções maiores para equipamentos públicos. Eram colocados sempre em centro de terreno, assim como os pavilhões. O pavilhão composto em forma de “L” (6) era uma solução intermediária entre o pavilhão e o claustro. Era utilizada quando se dispunha de terrenos de boa largura para casas-grandes, mansões urbanas, etc. A varanda alpendrada (7) ou puxada (8) era solução comum em todos os partidos, desde a casa mais simples do sertanejo até as mais sofisticadas.

A CASA DO SERTANEJO

É a mais simples construção do período colonial. Eram casas de homens livres, espécies de colonos, que cultivavam uma propriedade, dividindo a produção como o senhor de engenho. Sua casa pode ser feita toda de palha – a palhoça – na qual a estrutura é feita de paus roliços revestidos com palha, geralmente de buriti [3] ou carnaúba [4]. As paredes podem ser de pau-a-pique, sendo então também chamadas tapona ou sopapo.

Casa sertaneja.Imagem Barreto, 1975

Palhoça. Imagem BARDOU, 1983.

Tinham estas casas apenas um compartimento interno. Uma esteira grosseira de ramagens, estendidas nas extremidades são as camas de toda a família. Pendurado na estrutura do telhado, uma caixa de papelão ou um baú de folhas, onde “as moças guardam seus trajes de domingo”[5]. A cozinha era um canto deste compartimento único, com um forno e fogão de lenha, quando não um puxado do telhado ou um alpendre, que podia ser aberto ou fechado, ou ainda podia-se utilizar o quintal para cozinhar. Não havia, obviamente, banheiro ou latrina, como ainda hoje não se vê nas regiões mais afastadas, no interior. Indispensável, porém era o alpendre ou varanda frontal, o verdadeiro ambiente de estar. A entrada da varanda está sempre interceptada, para torna-la íntima e proteger da entrada de animais[6].

O rancho era também equipamento obrigatório. Colocado para além e junto da cerca, consistia em um pequeno abrigo para servir de pouso ao viajante ou tropeiro. Uma maneira de bem receber o visitante sem permitir o contato com a intimidade da casa.

FAZENDA DE ENGENHO

Fazenda de Engenho. (Fonte Vauthier, 1975)
1- Capela; 2-Casa Grande (Proprietário); 3-Hóspedes; 4-Casa do engenho; 5-Cavalariças; 6- Casa do bagaço; 7- Forno; 8- Cocheira; 9- Refinaria-destilaria; 10- Olaria; 11- Senzalas; 12; Casa do feitor.

A SENZALA

Consistia, quase invariavelmente em um comprido telheiro, feito de alvenaria de tijolos ou pau-a-pique, com celas medindo aproximadamente 3 m de comprimento e largura, cobertas também com telhas, as terças apoiando-se diretamente nas paredes. As portas eram de tábuas de madeira. O piso de terra batida e sem forro ou outra abertura.

Planta de uma senzala. Fonte Valthier, 1975Corte de uma senzala. Fonte Valthier, 1975

USINA DE ENGENHO

Segundo a descrição de Vauthier, consistia em uma vasta coberta sustentada por pilastras de tijolos, fechada apenas até a altura de um homem. As canas verdes empilhadas em uma das extremidades, as parelhas girando sem cessar.  Misturam-se o ruído dos gritos e o estalar das canas comprimidas sobre os cilindros.

Usina de Engenho. (Fonte Vauthier, 1975)
1- Almanjarra e moenda; 2-Reservatório de madeira para o caldo de cana; 3- Bateria para evaporação e cozimento 4-  Chaminé; 5- Depósito de cana.

A CASA GRANDE

A Casa Grande era a sede das fazendas, que abrigava o senhor de engenho, sua família seus agregados e hóspedes. Diferentemente dos outros tipos construtivos, a casa grande podia variar muito quanto à forma.

Fazenda de Engenho. Detalhe de planta. (Fonte Vauthier, 1975)
1- Capela; 2-Quartos de hóspedes; 3- Sala de jantar; 4- Sala de estar; 5-Tribuna das mulheres.

Vaultier, em suas célebres cartas[7] documenta uma destas casa-grandes. Como visitante, não teve acesso à intimidade da casa, razão porque desenhou apenas uma parte. Mas não é difícil supor o restante: uma seqüência de compartimentos, quartos ou alcovas, ligados por um corredor e contando, eventualmente com uma varanda.

Estas casas eram de apenas um pavimento de habitação, levantado do solo. A parte de baixo, segundo Vaultier, ocupada por armazéns e pessoal de serviço. A técnica construtiva é a melhor disponível, podendo ser de alvenaria de pedra ou taipa de pilão, dependendo da região. Telhados de madeira e telhas de barro.

Elemento indispensável nas casas-grandes de fazenda é a varanda, grande e larga, ocupando na maioria das vezes toda a frente como é o caso da Fazenda do Viegas ou então contornando toda a edificação. Neste item, um exemplo dos mais curiosos é o da Fazenda Colubandê, em São Gonçalo, em que temos uma varanda periférica externa e outra interna, separadas pelos compartimentos das salas e quartos da casa.

Fazenda Viegas. Rio de Janeiro, 1725.

Fazenda Colubandê. São Gonçalo.

Fazenda Colubandê. São Gonçalo.



[1] SMITH, Robert C. A arquitetura civil do período colonial. In: Arquitetura Civil I. Textos Escolhidos da Revista do IPHAN. São Paulo: FAUUSP e MEC-IPHAN, 1975. P. 128.

[2] VAUTIER, L. L.  Casas de residência no Brasil. In: Arquitetura Civil I. Textos Escolhidos da Revista do IPHAN. São Paulo: FAUUSP e MEC-IPHAN, 1975. P. 41 ss.

[3] Tipo de palmeira brasileira cujas folhas e troncos são utilizadas em construções rústicas.

[4] Tipo de palmácea comum no nordeste, que além dar derivados com que se fabricam, entre outras coisas, velas, sabonetes, isolantes, oferece o tronco e as palmas para as construções civis

[5] VAUTIER, L. L.  Casas de residência no Brasil. In: Arquitetura Civil I. Textos Escolhidos da Revista do IPHAN. São Paulo: FAUUSP e MEC-IPHAN, 1975. P. 94.

[6] BARRETO. Paulo Thedim. O Piauí e a sua arquitetura. In: Arquitetura Civil I. Textos Escolhidos da Revista do IPHAN. São Paulo: FAUUSP e MEC-IPHAN, 1975. P. 213.

[7] VAUTIER, L. L.  Casas de residência no Brasil. In: Arquitetura Civil I. Textos Escolhidos da Revista do IPHAN. São Paulo: FAUUSP e MEC-IPHAN, 1975. P. 80.

[8] Quarto interno, sem aberturas para o exterior.

BIBLIOGRÁFIA
BARDOU, Patrick, ARZOUMANIAN, Varoujan. Arquitecturas de Adode. Barcelona, Gustavo Gili, 1983.

BARRETO. Paulo Thedim. O Piauí e a sua arquitetura. In: Arquitetura Civil I. Textos Escolhidos da Revista do IPHAN. São Paulo: FAUUSP e MEC-IPHAN, 1975.

CORONA, Eduardo e LEMOS, Carlos A. C. Dicionário da arquitetura brasileira. São Paulo, EDART, 1972.
FOUCAULT, Michel. “Des espaces autres” In: Dits et écrits. 1984.
REIS FILHO, Nestor Goulart. Quadro da arquitetura no Brasil. São Paulo: Perspectiva, 1970.
RODRIGUES, José Wasth. Documentário arquitetônico. Belo Horizonte: Itatiaia, 1979.
SAIA, Luís. “Notas sobre a arquitetura rural paulista do segundo século”. In: Arquitetura Civil I. Textos Escolhidos da Revista do IPHAN. São Paulo: FAUUSP e MEC-IPHAN, 1975. P. 221-281.
SMITH, Robert C. A arquitetura civil do período colonial. In: Arquitetura Civil I. Textos Escolhidos da Revista do IPHAN. São Paulo: FAUUSP e MEC-IPHAN, 1975.
VAUTIER, L. L.  Casas de residência no Brasil. In: Arquitetura Civil I. Textos Escolhidos da Revista do IPHAN. São Paulo: FAUUSP e MEC-IPHAN, 1975.

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