A igreja de São Pedro dos Clérigos

Silvio Colin

A igreja de São Pedro dos Clérigos foi um dos mais importantes edifícios de nosso acervo colonial, vitimada pelo surto de modernidade do século XX, e de um pensamento vigente no entreguerras, segundo o qual resolver os problemas da cidade era resolver os seus problemas de tráfego. A igreja estava no caminho da Avenida Presidente Vargas e por isso foi demolida em 1943.

Igreja de São Pedro dos Clérigos. 

A Rua de São Pedro é anterior 1620. Chamou-se Rua Antonio Vaz Viçoso e Rua do Carneiro, nome dado em homenagem ao cirurgião Antonio Carneiro. Apesar do nome oficial, dado em 1817, ser Rua Desembargador Antonio Cardoso, após a construção da Igreja, no início dos anos 1730, ela ficou conhecida como Rua de São Pedro, nome que ostentou ate ser absorvida, em 1943, pela Avenida Presidente Vargas. Era a pista lateral direita, lado par, enquanto que o lado ímpar absorveu a Rua General Câmara. A pista central foi conseguida com a remoção dos quarteirões intermediários.

Traçado das ruas do Rio de Janeiro no século XVIII, localizando a Rua de São Pedro, a futura Avenida Presidente Vargas e a Igreja de São Pedro dos Clérigos.

A igreja de São Pedro dos Clérigos ou Igreja do Príncipe dos Apóstolos, propriedade da Venerável Irmandade do Príncipe dos Apóstolos de São Pedro, foi edificada pelo bispo D. Antonio Guadalupe para sediar a irmandade dos Clérigos em casa própria. em terreno na esquina das ruas São Pedro e Rua dos Ourives, atualmente Rua Miguel Couto.

Sua construção data de 1733 a 1738. A época provável dos principais trabalhos em talha foi a segunda metade do século XVIII. Sofreu reformas e restaurações em 1794-5, 1801-2, 1853 e 1856-9. Foi a primeira da colônia com cobertura em cúpula e com a nave curva[1] segundo o tipo de planta em forma de dupla oval, que seria o preferido das igrejas do Período de Mineração. O interior era decorado por rico trabalho de talha de Mestre Valentim. Foi local de sepultamento de personagens célebres, como o padre José Maurício, o poeta Silva Alvarenga, além dos historiadores Monsenhor Pizzaro e Luís Gonçalves dos Santos, o Padre Perereca.[2]

Igreja de São Pedro dos Clérigos. Planta

Durante o Estado Novo (1937-1945), decidiu-se abrir a Avenida Presidente Vargas, apresentada como solução para o tráfego crescente na capital. A obra acabou por demolir vários marcos históricos do Rio. Afonso Arinos e Rodrigo de Melo Franco Andrade, diretor do recém-criado Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN) tentaram em vão salvar a igreja de São Pedro dos Clérigos da demolição. Foi pensado deslocar o edifício para a lateral da avenida, por meio de um processo conhecido e testado desde o início do século XX. Aqui foi pensada a utilização de rolos de concreto de 60 cm de diâmetro.

O projeto consistia em substituir a parte inferior das paredes da igreja por concreto. Sob o concreto seriam colocados rolos que serviriam para deslocar a igreja até o outro lado da avenida. A Franki, uma empresa de fundações e infra-estrutural tinha tido sucesso na Europa no transporte de construções sobre rolos de aço. Mas aqui no Brasil surgiu a idéia de usar rolos de concreto, cujos estudos foram realizados pelo Prof. Fernando Lobo Carneiro.

O maior problema encontrado foi que as alvenarias eram bastante espessas – algumas tinham mais de um metro e eram completamente heterogêneas.  Dentro delas havia até mesmo pedaços de estátuas, madeira, tijolos etc., o que as tomava fracas. Além disso, O prefeito da época, Henrique Dodsworth, começou a ser ridicularizado. Diziam: “O velho está gagá, quer deslocar uma igreja sobre rolos.” O público não sabia que este tipo de transporte já havia sido utilizado com êxito na Europa. Fizeram até um samba sobre o assunto.

O prefeito mandou um oficio à Franki, perguntando se a empresa garantia que a igreja chegaria intacta do outro lado da avenida. O diretor da empresa respondeu que não poderia garantir dada a heterogeneidade das paredes, podendo haver um acidente durante o transporte, causando o desmoronamento. Diante disso, o prefeito deu o fato por encerrado e mandou demolir a igreja.

Mapa da Avenida Presidente Vargas localizando a Igreja de São Pedro dos Clérigos

Lateral da Igreja durante o processo de demolição do entorno para a abertura da Avenida Presidente Vargas

Abertura da Presidente Vargas com a Igreja de São Pedro ainda em pé.

 



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10 Respostas para “A igreja de São Pedro dos Clérigos

  1. Triste isso! Muito triste a indiferença em relação ao nosso patrimônio arquitetônico. E são tantos casos…

  2. Enquanto em outros países , é preservado o Patrimônio Histórico, aqui só fazem demolir para fazer besteiras.
    Demolir uma igreja tao linda como era esta de Sao Pedro!

  3. DESTRUIRAM O PALACIO MONROE POR CAUSA DO METRO, TAMBÉM, FOI UMA GRANDE PERDA IGUAL COMO ESTA IGREJA

  4. Quanta Species

    Sugiro mencionar o livro “A barbárie legitimada: a demolição da igreja de São Pedro dos Clérigos”, de Daniela Hollanda.

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