Sítio de Santo Antônio

Publicado na revista Acropole nº 289, dezembro 1962, ano XXIV. São Paulo

Construído em 1681, um dos mais notáveis conjuntos do tipo caracterizado como Sítio Bandeirista, importante manifestação da arquitetura brasileira do período colonial. Mário de Andrade o adquiriu em 1947 e o doou ao Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Desde então tem sido objeto de estudos e obras de restauração. Apresentamos a seguir um trabalho de 1962, publicado na revista Acrópole, contendo importantes informações sobre o conjunto, produzido pelo Grêmio da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo.

Imagem <tunel-tempo.blogspot.com>

Casa-grande

Datando de meados do século XVI I, a casa-grande pertence, portanto, à fase em que o bandeirismo piratiningano atingia seu apogeu. Fernão Paes de Barros, seu proprietário, homem abastado, grande financiador de bandeiras, mantinha lá uma multidão de índios e mamelucos, cuja subsistência foi conseguida pela policultura. Chegou até a exportar 500 sacas de trigo para a Europa. Como se vê, a ortodoxia do processo de colonização, baseado na monopolismo mercantilista dos portugueses, estava totalmente desvinculada.

Imagem < www.guiasaoroque.com.br

O Bandeirismo criou em Piratininga uma sociedade autônoma cujo poder concentrava-se não na posse de terras, mas na posse de índios e cuja dinamicidade foi conseguida pelo elemento humano que demonstrou grande capacidade de trabalho: o mameluco.

Casa Grande. Planta.

A casa-grande do Sítio de Santo Antônio retrata bem a sociedade daquela época. Assentada sobre um pequeno vale, a poucos quilômetros da atual São Roque, a casa goza das vantagens de proteção contra os ventos e aguada próxima. A planta se desenvolve em retângulo, apoiado em uma plataforma de pedra e coberta com telha canal em quatro águas, partido esse adotado, em larga escala, nos construções rurais daquele período.

As funções do residência são divididas em três setores bem definidos:

  • Social, onde se localizam o alpendre, a capela e o quarto de hóspedes. O alpendre pode ser considerado a parte principal do casa. Lá recebia-se hóspedes e enviava-se ordens. Era a separação de classes no dia de missa: os catecúmenos no alpendre, os senhores feudais no interior da capela.
  • Intima, compreende a sala íntima em torno da qual se desenvolvem os quartos. Era o lugar de trabalho e reunião da família.
  • Serviço, situado na parte correspondente ao fundo da casa, abrangendo uma área de circulação que se comunicava, provàvelmente, com o depósito.

Segundo Luís Saia: “A casa de Fernão Paes de Barros não apresenta vestígios de cozinha. Supõe-se uso de tripeças para os serviços de cozinha, justificável pela influência indígena na maneira de cozinhar dos colonos”.

 
 

O Sítio de Santo Antônio foi, no século passado, propriedade do Barão de Piratininga. Homem de formação burguesa, o Barão era dado a grandes caçadas e recepções. Assim sendo, procurou transformar a casa de Fernão Paes de Barros num lugar onde pudesse reunir amigos, artistas e intelectuais. Não conseguiu. Era absurdo. Era querer transformar a casa rural em casa urbana com características burguesas. Foi obrigado, então, o construir ao lado da casa-grande uma outra casa da qual só restam ruínas. A casa de Fernão Paes de Barros era expressão legítima da sociedade rural do segundo século, e que não podia, de forma alguma, adaptar-se a um outro tipo de sociedade; é uma arquitetura no seu mais alto grau de autenticidade.

Capela de Santo Antônio

Imagem < www.guiasaoroque.com.br

A Capela, situado a 30 metros da Casa-Grande, teria sido construída por insistência de Dna. Maria Mendonça, uma vez que na casa-grande já existia uma capela. A benção foi em 12 de junho 1682. O apuro espacial e a simplicidade de suas formas, expressam bem o valor da arquitetura dos jesuítas. A nave, a torre e o alpendre, independentes pelas coberturas, formam um conjunto bastante harmonioso e equilibrado. A planta segue o mesmo desenvolvimento dos capelas jesuíticas, com a nave e altar-mor num só corpo de construção, separados convencionalmente por um arco cruzeiro; enquanto que a torre com o sineiro, construída em pedra, forma um bloco bem definido sobre o qual se eleva original cobertura.

Painel de separação da nave com o alpendre. (Legenda da ilustração)

A separação da nave do exterior com o alpendre é feita em madeira, cuja colocação das peças dá um notável efeito de claro-escuro. Noto-se aí entalhes de influência mourisca. Existem dois altares laterais que apresentam entalhes diferentes, o que denota a influência de dois artistas.

Retábulo do Altar-Mor.

O retábulo do altar-mór segundo Lucia Costa: “é tratado de maneiro mais delicada e graciosa. Observando-se aqui, no desenvolvimento geral do risco, liberdades maiores como essa de se ampliar desmedidamente o clássico painel central que, das proporções modestas usuais, passou a dominar toda a composição desfigurando assim a idéia fundamental do desenho primitivo e conferindo ao conjunto aparência bem diferente, dado seu modelo original”.


Uma resposta para “Sítio de Santo Antônio

  1. FIco tão admirada com arquitetura antiga, brota um desejo em mim de preservar tais edificações, e manter vivo esse passado tão rico!

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