CIAM. O Movimento Moderno na Academia

 

 

 

Silvio Colin

Este texto é em parte tradução do verbete de Rayner Banham para o Diccionario Ilustrado de la Arquitectura Contemporánea, Barcelona. Gustavo Gili, 1975.

A criação dos CIAM (Congrés Internationaux d’Architecture Moderne) pode ser considerada como o marco inicial do período “acadêmico” do Movimento Moderno, sucedendo o período de vanguarda, ou período heróico. A iniciativa partiu de Hélène de Mandrot, uma mulher que aspirava o papel de mecenas da Arquitetura Moderna. Em seu castelo em La Sarraz, Suíça aconteceu a primeira reunião, em 1928. O objetivo, exposto por Le Corbusier era

…dar à arquitetura um sentido real, social e econômico… e estabelecer os limites dos seus estudos.

Na verdade, Corbusier e Gropius, após os insucessos do movimento que criaram nos concursos internacionais, sobretudo aquele da Sociedade das Nações, em Genebra, 1927, sentiram a necessidade de um fórum internacional de debates que os fortalecesse pela união. De 1928 a 1956, o congresso se reuniu por dez vezes, tratando de temas como o habitat mínimo, o edifício racional, a cidade funcional, a habitação coletiva, o núcleo da cidade. Seu mais conhecido produto foi a “Carta de Atenas”, produzida no CIAM IV, de 1933.

Primeira reunião em La Sarraz. Foto oficial.

A fase doutrinária

A fundação do CIAM, no ano de 1928, foi considerada o princípio da da fase “acadêmica” da arquitetura moderna. Foi aquele um momento oportuno, uma vez que o bairro Weissenhof, da  Exposição Werkbund de 1927, mostrou que havia alguma concomitância de conceitos entre os praticantes da arquitetura internacional ligados ao Movimento Moderno. Já durante a exposição tentou-se formar uma organização para coordenar todas as iniciativas internacionais isoladas em uma nova arquitetura.

Bairro Weissenhoff. Stutgart.

Mas o impulso decisivo para a criação do CIAM foi de Helene de Mandrot. Ela promoveu uma reunião de grandes nomes da arquitetura em seu castelo La Sarraz, na Suíça, projeto romântico que, após uma consulta com Giedion e Le Corbusier, foi materializada em um objetivo concreto.

Na apresentação feita para as delegações que então se constituíram, disse:

O objeto principal e a finalidade que aqui nos reuniu, é juntar os diversos elementos da arquitetura contemporânea em um todo harmonioso, e dar à arquitetura um sentido, real, social e econômico. A arquitetura deve, portanto, libertar-se da influência de Academias estéreis e suas fórmulas ultrapassadas. “

Isto é, a arquitetura deve ser regida por novas fórmulas, diferentes das anteriores. Embora se possa estabelecer uma diferença marcante entre este Congresso preparatório e as reuniões posteriores,  podemos dizer que em de 26 a 28 de junho 1928 foi realizada em La Sarraz, o CIAM I. A ironia, que revelou os ataques tão freqüentes ao academicismo arquitetônico, também transpareceu no preâmbulo do Estatuto de Frankfurt (CIAM II, 1929), que explicou-se os objectivos do CIAM:

a) perceber e estabelecer o verdadeiro problema da arquitetura;

b) a formular as idéias da nova arquitetura;

c) estender essas idéias a todos os aspectos técnicos, econômicos e sociais da vida moderna;

d) determinar zelosamente os problemas internos da arquitetura.

Cidade Vertical. 1924. Ludwig Hilberseimer

O Estatuto de Frankfurt criou três corpos no CIAM:

1. O Congresso ou dos Assembleia Suprema  dos membros

2. O CIRPAC (Comitê Internacional para a resolução dos problemas da Arquitetura Contemporânea) escolhidos pelo Congresso.

3. As comissões e grupos de trabalho que deviam lidar com determinados problemas, com a colaboração de especialistas (não arquitetos).

Foram formadas também secções nacionais. Este aspecto acadêmico não tinha nada a ver com o trabalho que realmente foi desenvolvido nesses anos.  O Congresso de Frankfurt teve lugar sob a orientação do arquitecto Ernst May, o maior especialista europeu na construção de habitação social e o resultado foi o mais importante documento sobre “Habitação para as necessidades mínimas”.

O CIAM III foi realizado devido aos esforços de Victor Bourgeois em 1930, em Bruxelas, e abordou o problema da aquisição de terras para a construção, e deu à luz a publicação “Razões de construção racional.” O caráter de ambos os Congressos foi ao mesmo tempo realista e dogmático e serviu para o anos 1920-1930, que assistiram ao último esforço comum dos arquitetos que trabalharam no Bairro Weissenhof e que, nos três últimos anos, testemunhou variações muito significativas.

Vila Contemporânea com 3 Milhões de Habitantes . 1922. Le Corbusier.

 

Proposta de remover todo o tecido existente de Paris ao norte do Sena, e substituí-lo por edifícios de 60 andares em forma de cruz colocado em uma grade de rua ortogonais e “áreas verdes”. Idéias que estarão na Carta de Atenas.

Já em 1930, evidenciou-se uma falta de preparo dos CIAM em idéias e organização, para enfrentar e resolver os problemas que surgiam nas discussões acerca da construção urbana. Propunha os CIAM a padronização da técnica gráfica, tabelas e métodos de representação, aspiração não alcançada até o estabelecimento em 1949 do La Grille CIAM.  grupo holandês, iniciado por Cor van Eesteren, voltado à preparação de uma terminologia especial para o planejamento urbano. Este trabalho mostrou-se tão doloroso e duradouro, que o CIRPAC reuniu-se três vezes para finalizar-lo (Berlim, 1931, Barcelona, 1932, Paris, 1933), enquanto que o novo Congresso vai ultimar a tal terminologia.

A fase romântica

O CIAM IV, cujo tema era A Cidade Funcional, teve lugar em julho e agosto de 1933, a bordo do transatlântico Patris, entre Marselha e Atenas. Neste primeiro Congresso “romântico” prevaleceu o critério de Le Corbusier e dos arquitetos franceses, e não o realismo alemão.

O cruzeiro pelo Mediterrâneo, tanto em relação à situação política tensa, quanto à realidade da Europa industrial, consubstanciou-se em um documento muito olímpico e retórico, A Carta de Atenas, que lidou com os problemas urbanos e apontou soluções para corrigir seus defeitos. As cinco seções principais referem-se à habitação, recreação, trabalho, circulação e tradição.

As normas formuladas eram muito dogmáticas e de caráter geral e sua atenção para as questões práticas era menor do que aquelas de Frankfurt e Bruxelas. Esta generalização tinha a vantagem de lidar com problemas numa base mais ampla, por exemplo, dizendo que as cidades só devem estudar-se em seu conjunto regional. O tom generalizador da Carta de Atenas lhe confere o caráter de validade e aplicação universal, mas também envolve um conceito limitado e bem definido  da arquitetura e urbanismo. Por exemplo, o CIAM propõe:

a) A divisão da cidade, em áreas funcionais, com áreas verdes entre os prédios diferentes

b) um único tipo de habitação urbana, definido por blocos de arranha-céus, espaçados, em áreas com grande densidade populacional. Estas disposições foram por muito tempo aceites como normas gerais estéticas.

Superquadra em Brasília.

A Carta de Atenas definiu único tipo de habitação para habitação urbana, definida por blocos de arranha-céus, espaçados, em áreas com grande densidade populacional.

Fase crítica

Depois da Segunda Guerra Mundial, tornou-se conhecida no mundo inteiro a Carta, para a sua observância nos planos de desenvolvimento mais avançados. Embora o sistema CIAM tornou-se obrigatório nas escolas de arquitetura e escritórios de planejamento, observou-se, no entanto, um claro declínio na sua execução. A mais significativa foi o aparecimento de uma seção Can Our Cities Survive?, esta secção é chamado de Centro Comunitário. No início isso parecia um centro local onde os cidadãos poderão se livrar do círculo cartesiano opressor Habitação Trabalho-Lazer, Transporte.

No estudo dos centros comunitários tornou cada vez mais clara a ignorância teórica dos CIAM em relação aos problemas específicos de uma cidade. Por exemplo, a Carta definia a habitação como o primeiro papel das cidades, mas na realidade é a primeira função em qualquer agrupamento humano. Trabalho e circulação (ou Comunicação) são comuns até mesmo para os nômades do deserto, e recreação, não é, nem pode ser, característica das cidades. Após a guerra, a principal tarefa do CIAM foi, portanto, esclarecer determinadas funções urbanas das grandes cidades.

Brasilia (1957) e Chandigarh (1952-9)

Chandigarh (Le Corbusier) e Brasília (Lúcio Costa) foram as únicas cidades inteiramente projetadas de acordo com os princípios da Carta de Atenas. Ironicamente, o urbanismo de Brasília, que ajudou a projetar mundialmente a arquitetura brasileira, e foi apresentada com a última palavra em urbanismo, foi projetada um ano depois do último congresso dos CIAM, o orgão que estabeleceu os  critérios de  seu projeto, e depois de declarado o fracasso de seus princípios.

 

O CIAM VIII, realizado em 1951 em Hoddesdon (Inglaterra), acusou claramente novas tendências. O fracasso da “Carta”, foi oficialmente reconhecido pelo anúncio o tema do Congresso: O Centro Urbano. Quanto a este problema, estavamo os congrecistas tão despreparados como em 1930 sobre o planejamento urbano. O relatório do Congresso, publicado por Jacquelije Tyrwhitt, José Luis Sert e Ernest N. Rogers é pouco mais que um compêndio de clichês soltos, como, por exemplo, a recomendação para integrar as artes plásticas e a pintura na arquitetura. Atrás destes chamados estudos, houve apenas um grande vazio urbano e intelectual. A cidade foi concebida com a mesma abordagem que as áreas mais remotas, puramente funcionais, como um espaço livre, de modo que o cidadão deve estar equipado com um milagroso instinto para ser capaz de se localizar e reconhecer.

CIAM IX. A relação entre a Rua e a Casa.

Não tardou muito a aparecer o fracasso do Oitavo Congresso; mas já então tinha sido realizada em Aix-en-Provence em CIAM IX. O tema oficial era Habitat, apesar de o Congresso estar mais preocupado com uma grande assembléia ou reunião de estudantes que defendeu calorosamente Le Corbusier. E foram os  jovens que se preocuparam em liberar os CIAM de fórmulas ultrapassadas. Os grupos, que foram responsáveis pela organização do  CIAM X (chamado Team X), ainda que parte das orientações do CIAM IX, estava longe do conteúdo da Carta de Atenas. Contra generalizações desta Carta, o Team X fez a seguinte afirmação: “Todo arquiteto, com projetos embaixo do braço, deve estar preparado para dar razões. Devemos reconhecer  novas idéias vigentes hoje, que são evidentes em nossa aversão aos princípios mecânicos de ordenação. O CIAM X deve mostrar que nós, como arquitetos, assumimos nossa responsabilidade, e devemos criar uma ordenação formal e a responsabilidade para qualquer trabalho original de ser ainda muito pequeno “

Team X.

No CIAM X, realizado em Dubrovnik, em 1956, sob o tema Habitat, o trabalho real dos participantes foi opor-se às demandas de jovens arquitetos radicais do Team X, como Bakema, Candilis, Gutman, Alison e Peter Smithson, Howell, van Ejck e Voelcker. Ao final do Congresso, o Team X estava diante das ruínas do CIAM, destruído com o mesmo entusiasmo com que ele havia sido levantado. Mas algumas seções, sobretudo a italiana, advogavam uma continuação. O Team X, entretanto, não tinha nada contra a reuniões internacionais, e assim um novo Congresso foi realizado em 1959, em Otterlo, respondendo em parte ao que o Team X tinha projectado para CIAM X: “dar razões” e ver os resultados publicados.

Como revelaram as atas, as discussões sobre problemas concretos  foram tão limitadas como extensas foram as conversas sobre assuntos gerais. Os relatores dos documentos não dizem nada sobre a luta entre os diversos delegados que queria destacar a sua obra daquela definida pelo CIAM. Alguns congressistas, que não compareceram às sessões finais, questionaram a legitimidade dos votos sobre estas questões e alguns membros-chave, tais como Giedion, Sert, Gropius e Le Corbusier, embora sem cooperar com o Congresso, fizeram duros reparos contra o Team X.

Conclusões

Os resultados de trinta anos de atividade internacional não foram nem eficazes nem meritórios. A quebra do CIAM deve ser creditada, em primeiro lugar, a seus principais colaboradores, cuja propensão acadêmica de uma estrutura formal foi imposta ao programa de trabalho. Apesar disso, O CIAM foi o principal instrumento que deu ao mundo conhecer as idéias de arquitetura moderna e planejamento urbano. Por outro lado, foi o centro de troca de iniciativas internacionais e progressivas mais ousadas. É claro que estas orientações e seus membros têm um grande significado histórico, embora hoje completamente superados, como o seu principal produto: a Carta de Atenas.

Os Encontros do CIAM
CIAM I 1928 La Sarraz, Suiça
CIAM II 1929 Francfurt. Alemanha
CIAM III 1930 Bruxelas, Bélgica
CIAM IV 1933 Atenas, Grécia.
CIAM V 1937 Paris, França
CIAM VI 1947 Bridgewater, Inglaterra
CIAM VII 1949 Bérgamo, Itália
CIAM VIII 1951 Hoddesdon, Inglaterra
CIAM IX 1953 Aix-en-Provence, França
CIAM X 1956 Dubrovnik, Iugoslávia
Os Temas dos CIAM
CIAM I Fundação dos CIAM
CIAM II Unidade mínima de habitação (Existenzminimum)
CIAM III Desenvolvimento racional do lote (Rational Lot Development)
CIAM IV A Cidade funcional (The Functional City) Carta de Atenas
CIAM V Moradia e recreação (Dwelling and Recreation)
CIAM VI Podem nossas cidades sobreviver? (Can Our Cities Survive?)
CIAM VII Sobre a cultura arquitetônica (Concerning Architectural Culture)
CIAM VIII O Coração da cidade (The Heart of the City)
CIAM IX A Carta da habitação (The Charter of Habitat)
CIAM X Team X

7 Respostas para “CIAM. O Movimento Moderno na Academia

  1. A maquete apresentada como Plan Voisin de 1925 e, na verdade, da Cidade Contemporânea para três milhões de habitantes de 1922.

    • Tem razão Eloísa. Obrigado pelo comentário. Já foi corrigido. O Plan Voisin é uma evolução da proposta da Vila Contemporânea. É muito parecido, porém tem menos edifícios.
      Silvio

  2. Pingback: As Obras Revolucionárias de Le Corbusier « Miliauskas

  3. Muito bom! Gostei das informações!

  4. Boa Noite, Obrigado senhores. Sou estudante de arquitetura, e esta matéria iluminou minha opinião e pouco conhecimento sobre o assunto.
    Valeww!

  5. Ana Luce Aires

    Sou arquiteta e gostei muito do que li, um abraço a todos

  6. Maria José Sanches

    Silvio, preciosa leitura. Informações que contribuem para um panorama sobre as reuniões dos CIAM.

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